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De Pérola Mathias

Qual nome poderíamos dar ao sujeito amoroso ou ao amante na contemporaneidade? Aquele que não se apega apenas ao lado romântico do amor, mas que se mostra consciente ao vivê-lo por todos os seus lados: o bom, o ruim, o angustiante, o vazio, o apaixonado, o egoísta, o empático etc.? Talvez não tenhamos ainda esta definição de um modo específico. Ou temos? Bem, o que importa é que é essa experiência que as canções de Paulo Carvalho privilegiam em seu terceiro disco, Carvão, como um modo de ser e estar no mundo.

Carvão é o mineral que, depois de fossilizado, soterrado por anos, é extraído e vira fonte de energia, combustível. Sua cor negra, sua textura, sua capacidade de deixar uma marca em tudo que toca pode ser análogo a toda a experiência que Paulo canta sobre o amor, que vem do contato profundo com os sentimentos e volta consciente à superfície da vida para analisar o que se viveu. É uma ida e vinda, um movimento constante que chega até o ouvinte já na primeira faixa do disco.

Em “Náufrago”, parceria com André Lima (que assina quase todas as faixas com Paulo), ele canta: “Há tanto mar/ por descobrir” e se coloca como “um náufrago na ilha/ são e salvo/ que celebra a doce/ solidão enfim”.

Ver a solidão ser celebrada é raro, pois, em geral, ela é cantada como aquele sentimento que causa sofrimento, que precisa passar (ainda que Marcelo Camelo tenha cantado “ah, solidão, foge que eu te encontro”), mas aqui é visto como um momento e, reconhecido como tal, pode proporcionar calma, distanciamento, recolhimento, para logo ser ultrapassado. Tanto que a letra segue com a consciência de que “falta-me um cais/ falta sorrir/ não posso amar/ sem te pedir/ não vá por mim/ vá por você/ há de encontrar porto feliz”. Como na “Ode Marítima” de Pessoa, em que o eu-lírico, “Sozinho, no cais deserto”, olha e sente tudo a sua volta, com um “volante interno que gira lentamente”, e daí um mundo se desvela em movimento, repouso, observação e vida vivida. No disco de Paulo, o tempo é a chave: nada que ele não possa apagar, nada que não se possa reaprender, como ele canta em “Tudo e Nada”.

“Área de cobertura” é uma composição de Paulo com Arnaldo Antunes e André Lima. Pra cima e bem humorada, traz o drama contemporâneo da conexão com outra pessoa e a mediação pelo celular que, com todos os seus recursos de mensagens, visualizações e rastros online, aumentam nosso nível de ansiedade a um grau que desconhecíamos quando tínhamos apenas o sinal da ligação. A batida do violão contrasta com os passos agoniados da figura que canta a espera da amada, de paradeiro desconhecido porque está fora de cobertura. A espera e a inquietação vão se desdobrando no movimento: “fico andando pela sala/ vou da cabeceira ao braço do sofá […] tento não pensar/ em ti/ mas pego o telefone/ só para conferir”. Como se diz: quem nunca?

Carvão é um disco cheio de verdade, que nos chega como uma camisa rasgada no peito: nada nele esconde que houve uma entrega – à vida, ao amor, às sensações, como o ouvinte quiser interpretar – por parte de quem o canta. Se flerta com o pop ou com a tradição, todo o mais do disco se dissolve na densidade da produção assinada por Kassin e nos arranjos do maestro Arthur Verocai. A orquestra de cordas, o baixo, o piano, a bateria, a guitarra (tocada por Tim Bernardes e pelo próprio Verocai em “Vamos saber”) contribuem para que o disco seja um alento na canção contemporânea. E uma das coisas que mais chama atenção no disco é justamente a ambiência sonora criada pela orquestra. No entanto, em vez do instrumental soar carregado ou tenso, ele flui, leve, corroborado pelo canto doce de Paulo, que parece que sorri aos nossos ouvidos – ainda que essa delicadeza escape em versos que explodem seu realismo contemporâneo, como o que dá nome à faixa “O amor não é pra ser amado”.

E vão nesse sentido também os versos “Não desejo um padrão normal/ pra viver um amor banal”, de “Falso sorrir”, que são tão contundentes que foram já destacados pelo release escrito por João Paulo Cuenca para o disco, que os associa a uma atualização contemporânea das canções de Tom Jobim e Newton Mendonça. É essa a ideia, talvez, que constitui o tal do amante contemporâneo, para quem o amor não está congelado em um melancólico “Retrato em branco em preto” (canção de Tom e Chico), nem deve ser cultivado num vaso de esperança vã.

Aliás, a relação com a bossa nova pode ser encontrada de novo no ritmo de “Vamos saber”, faixa na qual Paulo divide os vocais com Mãeana (Ana Lomelino), num dueto a la Tom Jobim e Nara Leão – a quem a voz doce de Ana remete imediatamente. A canção é um mergulho em uma piscina azul num dia de sol. Ao contrário da racionalidade, da ponderação, do afastamento ou até mesmo da decepção expressa em outras letras e faixas do disco, aqui tudo é solar – como a própria bossa nova. E mais uma vez a vida e a experiência são reafirmadas: “Vou confessar/ vale sofrer por/ alguém […] Vou te lembrar/ Vale amar sem temer”. Mais do que uma confissão, um sutil recado/retrato do nosso tempo.

Carvão é antes um ciclo. Tudo nele remete ao movimento: da natureza, do amor, da vida, do indivíduo; ainda que se olhe ao redor de um “Mesmo lugar” – letra de Paulo que passeia pelas estações do ano, mostrando como cada coisa tem seu tempo. Afirma que até no difícil inverno, “persiste acesa a/ brasa de um carvão”. O que me lembra o poema de Zymborska que diz “Herdamos a esperança –/ o dom de esquecer./ Você vai ver como damos/ à luz em meio a ruínas”.

“Qual o por quê?” é o golpe final e arrebatador do disco. Parceria de Paulo com Marcelo Jeneci, que toca piano na faixa, a pergunta título é a dúvida essencial deste amante que se revela no disco. Se há amor, há decepção. E fica mais do que claro que, nesta concepção ampla, o amor é cíclico. Assim, se ele nasce, ele também morre – e renasce –, mas: “Qual o porquê? De tudo ser como é/ quando termina […] Qual o porquê?/ Da história que/ persiste na memória/ Da gente não saber/ quando é que é a hora/ De romper com aquilo/ que se já viveu”. São as dúvidas e angústias pelas quais todos passamos e essa é uma das coisas mais sensíveis da música de Paulo, nos atingir em sentimentos comuns, ainda que cada um de nós os viva de maneira diferente. Sempre fala de algo que passamos, enquanto amantes, românticos ou não. E o disco termina com os versos: “Não existe forma para amar/ Não existe um jeito/ de saber se é sim/ Não existe um meio/ de evitar o fim/ Se o fim é pra recomeçar”. E é como se essa frase fosse o gatilho para que apertemos novamente o play.

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