“Treine a memória”: Umberto Eco aconselha as futuras gerações

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“Treine a memória”: Umberto Eco aconselha as futuras gerações

Celebramos a chegada da Amarello Infância nas bancas com a bela carta de Umberto Eco ao seu neto. Nela, o escritor italiano deixa alguns conselhos para as próximas gerações. Confira:

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A vida é como assistir a um filme na minha época. Nós nascemos e muitas coisas aconteceram há centenas de milhares de anos. E é importante entender tudo isso.

Umberto Eco nasceu na cidade de Alexandria, na Itália, em 1932. Considerado um dos grandes nomes da literatura mundial, foi escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo. Entre os inúmeros livros publicados, ficou internacionalmente conhecido com os romances O Nome da Rosa (1980) e O Pêndulo de Foucault (1988) e Número Zero (2015).

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Meu querido neto, 

Eu não gostaria de que esta carta de Natal se parecesse muito com alguma coisa do De Amicis e pregasse o amor aos nossos vizinhos, à pátria, à humanidade e coisas assim. Você não prestaria atenção (já é um adulto e eu, muito velho), uma vez que o sistema de valores mudou tanto a ponto de minhas recomendações parecerem obsoletas.

Então, gostaria de me deter a apenas uma recomendação, que você poderia colocar em prática agora, enquanto navega com seu tablet. Não cometerei o erro de recomendar que você não utilize seu tablet. E não por medo de parecer um vovô antiquado, mas porque eu mesmo o faço. Em casos extremos, eu poderia aconselhá-lo a não dar muita atenção às centenas de sites pornográficos que mostram jogos eróticos. Não pense que as relações sexuais se reduzem a essas ações, um tanto monótonas. Essas cenas são projetadas para mantê-lo em casa, de modo que você não conheça garotas reais. Eu suponho que você seja heterossexual; caso contrário, considere minhas recomendações de acordo com a sua condição, mas olhe para as meninas na escola ou no recreio. Afinal, elas são melhores do que as da televisão e algum dia vão te dar mais alegria do que as garotas da Internet. Acredite, pois tenho mais experiência (se eu tivesse visto relações sexuais apenas em um computador, seu pai nunca teria nascido e você também não). Mas não é sobre isso que gostaria de falar com você, mas sobre a doença que afetou sua geração e a anterior, pessoas que já estão nas universidades.

Estou falando da perda de memória. É verdade que, se quiser saber quem é Carlos Magno ou onde fica Kuala Lumpur, você pode pressionar algumas teclas e encontrar imediatamente informações na Internet. Faça isso quando precisar, mas, ao coletar as informações, tente se lembrar do conteúdo para não procurá-lo novamente quando precisar, por exemplo, na escola. Entender que um computador pode responder à sua pergunta a qualquer momento desestimula seu desejo de memorizar informações e isso é ruim. Pode-se fazer a seguinte comparação: depois de aprender que, de um lugar a outro, pode chegar de ônibus ou de metrô — o que é muito conveniente no caso de estar com pressa — a pessoa decide que não precisa mais caminhar.

Acontece que, se você parar de andar, vai se tornar uma pessoa que será forçada a se movimentar em uma cadeira de rodas. Sim, eu sei que você pratica esportes e sabe como exercitar o corpo, mas voltemos ao cérebro.

A memória se assemelha aos músculos das pernas. Se você parar de se exercitar, ela ficará flácida e você se tornará um idiota. Além disso, na velhice, todos corremos o risco de sofrer de Alzheimer e uma das maneiras de evitar esse problema é exercitar nossa memória constantemente.

Aqui está a minha receita: todas as manhãs, decore um poema curto, tal como nos obrigavam a fazer na infância. Você pode organizar uma competição entre amigos para ver quem tem a melhor memória. Se não gosta de poesia, pode memorizar a escalação de times de futebol, mas deve se lembrar dos jogadores, não apenas da Roma, mas também das formações de outros clubes, bem como das equipes anteriores da própria Roma (imagine, eu lembro dos nomes dos jogadores do Torino que estavam a bordo do avião que sofreu um acidente na colina de Superga: Bacigalupo, Ballarin, Maroso, etc.). Aposte com seus amigos quem se lembra melhor do conteúdo dos livros lidos: eles lembram os nomes dos servos dos três mosqueteiros e D’Artagnan (Grimaud, Bazin, Mousqueton e Planchet) …? E, se não quiser ler Os Três Mosqueteiros (embora, nesse caso, não saiba o que está perdendo), então invente um jogo similar com qualquer livro que tenha lido.

Parece um jogo. E é isso. Mas você verá como sua cabeça vai se encher de personagens, histórias e todos os tipos de memórias. 

Você vai perguntar por que o computador costuma ser chamado de “cérebro eletrônico”. Porque ele foi concebido de acordo com o modelo do seu (nosso) cérebro, só que o humano tem mais conexões do que o computador.

O cérebro é um computador que está sempre com você, suas capacidades se expandem como resultado de exercícios. Enquanto seu computador perde a velocidade após o uso prolongado e, depois de alguns anos, precisa ser substituído, seu cérebro pode servir até os 90 anos e, mesmo nessa idade, se você exercitá-lo, irá se lembrar de mais coisas do que se lembra agora. Além disso, é de graça.

Existe também a memória histórica, que não está relacionada aos fatos da sua vida pessoal ou ao que você leu. Ela registra eventos ocorridos antes do seu nascimento.

Hoje, se você vai ao cinema, tem de chegar antes do início do filme. Quando ele começa, parece que te guiam o tempo todo pela mão, explicando o que está acontecendo. No meu tempo, você podia entrar no cinema a qualquer momento, mesmo na metade do filme. Muitas coisas haviam acontecido antes de você entrar na sala, e você era obrigado a entender esse enredo. Quando começava a próxima sessão, você podia verificar se a sua reconstrução mental estava correta. Se tivesse gostado do filme, podia ficar e vê-lo novamente. A vida é como assistir a um filme na minha época. Nós nascemos e muitas coisas aconteceram há centenas de milhares de anos. E é importante entender tudo isso. Ajuda a compreender melhor por que agora tantas coisas novas acontecem.

Hoje, a escola (além das suas próprias leituras) deveria ensiná-lo a entender o que aconteceu antes do seu nascimento, mas isso pode não agradá-lo. As pesquisas revelam que a juventude de hoje, nascida em 1990, mesmo a que já frequenta a universidade, não sabe e pode não querer saber, o que aconteceu em 1980, isso sem falar no que aconteceu há 50 anos. As estatísticas mostram que, quando perguntados sobre quem foi Aldo Moro, os jovens respondem que ele era o cabeça das Brigadas Vermelhas, mas foi morto por membros dessa mesma organização da esquerda radical.

As atividades das Brigadas Vermelhas continuam sendo um segredo para muitos, mas estavam presentes no cenário político há apenas 30 anos. Eu nasci em 1932, 10 anos depois que os fascistas chegaram ao poder, mas sabia quem era o primeiro-ministro durante a Marcha sobre Roma. Talvez, na escola fascista, tenham me falado dele para explicar como esse ministro era estúpido e mau e foi substituído pelos fascistas. Tudo bem, mas pelo menos eu sabia.

Mas vamos deixar a escola de lado. A juventude de hoje não conhece as atrizes do cinema de 20 anos atrás enquanto eu conhecia Francesca Bertini, que atuou em filmes mudos 20 anos antes do meu nascimento. Talvez porque eu ficasse folheando revistas velhas jogadas no armário da nossa casa. Eu sugiro que você reveja as revistas antigas porque isso ajuda a entender o que aconteceu antes de você nascer.

Mas por que é tão importante saber sobre os acontecimentos do passado distante? Porque muitas vezes esse tipo de conhecimento ajuda a entender o curso do presente e, em qualquer caso, assim como o conhecimento das escalações dos times de futebol, sempre acaba servindo para turbinar nossa memória.

Tenha em mente que você pode treinar sua memória, não apenas com a ajuda de livros e revistas. Também é possível com a ajuda da Internet. Ela serve não só para conversar com amigos, como para estudar a História universal. Quem foram os hititas e as camisards? Quais eram os nomes das três caravelas de Colombo? Quando os dinossauros foram extintos? A arca de Noé tinha um leme? Qual era o nome do ancestral do touro? Cem anos atrás, havia mais tigres do que agora? O que você sabe sobre o império do Mali? E quem falou sobre o Império do Mali? Quem foi o segundo papa da história? Quando Mickey Mouse apareceu?

Eu poderia continuar fazendo infinitas perguntas e seriam excelentes assuntos para pesquisar. Tudo isso deve ser lembrado. Chegará um dia em que você envelhecerá, mas sentirá que viveu mil vidas, como se tivesse participado da Batalha de Waterloo, como se estivesse presente no assassinato de Júlio César, visitado o lugar onde Bertold Schwartz, misturando diferentes substâncias em um morteiro na tentativa de obter ouro, acidentalmente inventou a pólvora. Já os seus amigos, que não procuram enriquecer a memória, viverão apenas uma vida, a deles próprios, monótona e desprovida de grandes emoções.

Enriqueça a sua memória e amanhã memorize “La Vispa Teresa”.

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Carta originalmente publicada no jornal L’Espresso

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