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UM BILHÃO DE SAUDADES

CRÔNICA POR VANESSA AGRICOLA

 

Faz dois anos que ele se foi. Dois anos que penso nele todos os dias. Vejo alguém comer geleia, lembro dele tomando café da manhã. Comia sempre uma torrada com geleia de laranja, e pra beber um chá inglês. Se alguém fala da França, lembro dele me mostrando Paris. A gente tomando sopa de cebola no restaurantezinho que ele adorava, ali de frente da Notre Dame, conversando sobre a vida, tomando vinho da casa, ele me dizendo que eu estava linda com aquela jaqueta. Dali saímos a caminhar pela Champs-Élysées, ele avistou um casaco de pele preto, dizendo que era minha cara. Me fez vestir o casaco, perguntou o preço, se não fosse minha sensatez teria comprado. “É muito caro isso, Gorducho”. Sempre teve essa mania de me comprar tudo, como que para me dizer eu te amo, eu já sabia. Mas ele todos os dias queria me dar uma prova, ou num presente, ou num olhar de admiração e carinho que nunca ninguém além dele me deu.

 

Quando nos sentávamos juntos para jantar, em casa mesmo ou em um restaurante, eu e ele costumávamos nos cutucar embaixo da mesa, por causa de um comentário da minha mãe ou dos irmãos; éramos cúmplices nas nossas opiniões sobre eles. Éramos comparsas. Bastava uma troca de olhares, uma piscadinha, a tão famosa cotovelada que ele costumava dar, era quase um afago, que acabava com a gente rindo junto, da minha mãe, ou dos irmãos, ou de um assunto.

 

Minha mãe sempre dizia que não podíamos ser mais parecidos. E quando ela ficava de mau humor, ou com ele ou comigo, nós dois ríamos. Sem ele minhas piadas ficaram de mau gosto. Só ele era tão irônico. Também não faço mais churrasco, porque me lembra dele tanto que me dá vontade de vomitar. Não tomo mais vinho com Fanta, não escuto mais tango, nem Shakira. Foi ele que me fez gostar dela. E de Simon and Garfunkel. E de Van Morrison. E de reality shows de culinária. Tarefas impossíveis, tipo preparar um banquete com entrada, prato principal e sobremesa em menos de uma hora o faziam delirar. E eu deitada em seu colo me divertia, de tanto ver esses programas aprendi a cozinhar. Também por ficar com ele na cozinha, enquanto ele fazia seu macarrão com linguiça tão gostoso… Era um mestre-cuca, meu Gorducho. Um campeão de golf, um gênio da matemática, um homem generoso desses que te preparam o jantar tomando um vinho e ouvindo música.

 

Sabe qual a minha maior tristeza? Vê-lo moribundo, delirando sobre a minha herança. “Nessinha se va a quedar con la casa de Punta”. Me doeu a vergonha que ele sentiu por não ter podido me deixar nada. E por que eu não te disse que o melhor que a gente deixa é a saudade? Será que eu não sabia? Ou não queria acreditar que daquela vez você iria mesmo embora? Que o dia que a gente brigou seria o nosso último dia. Ah, adonde estás ahora? Daí você me escuta? Será que você me lê? O melhor que a gente deixa é a saudade.

 

“Vanessa Agricola escreve no blog cronicasdavaca.com.br

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