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TATUAGEM

Por Henrique Fogaça

Alguns registros ancestrais falam sobre a existência de um povo muito antigo no norte europeu, que tinha o costume de fazer desenhos definitivos no corpo e que, devido a este hábito, foi denominado Pictus.

Os Pictus não se tatuavam por vaidade. Acreditavam que aquelas inscrições lhes davam poder e força, e que os desenhos, além de representarem a interconexão de todas as coisas sobre a terra, ficavam impressos na alma para que pudessem ser identificados por seus antepassados após a morte.

A tatuagem sempre existiu como forma de expressão da personalidade ou como marca de pertencimento a um grupo. Os primitivos se tatuavam para marcar os fatos da vida biológica: nascimento, puberdade, reprodução e morte.

Depois, para relatar os acontecimentos sociais: virar guerreiro, sacerdote ou rei; casar-se, celebrar a vida, identificar os prisioneiros, pedir proteção ao imponderável, garantir a vida do espírito durante e depois da existência física. Após anos marginalizada, renasceu para ser, hoje, modalidade artística.

Minha historia com a tatuagem é bem antiga e se relaciona com muitos momentos de minha vida. Fiz a primeira aos quinze anos e, nesta fase, queria contestar, protestar. Era uma maneira de buscar e sublinhar meus ideais, diversos dos da maioria da sociedade. Sentia-me diferente e marquei isso na pele – o que veio totalmente associado à música que escutava e ainda ouço: o rock e o punk rock.

Aos poucos, passei a tatuar momentos importantes, como a definição de minha profissão, que representei com uma réplica da cozinha e alguns ingredientes que considero essenciais: alho, sal e pimenta. O nascimento de meus filhos, por meio de seus nomes, foi registrado; e também tenho tatuagens que são a expressão da arte do tatuador – aquilo que ele faz de melhor.

Sempre gostei da arte da tatuagem e sei que a utilizo para eternizar todos esses momentos e ideais que cultivo até hoje. Eternizo na pele as lembranças, a minha história, como se essas marcas não me deixassem esquecer quem eu sou; para que não me perca de mim ao envelhecer; para que meu espírito permaneça sempre vivo.

As artes em geral – como a música que faço com minha banda Oitão, ou como uma pintura que conte parte da história – são formas de presentificar e eternizar um passado; o passado que não passa.

 

Henrique Fogaça, chefe e proprietário do Sal Gastronomia, vocalista da banda de hardcore Oitão, pai de Olivia e João.

 

Esta matéria é ilustrada com o estudo The Special Signs (os símbolos especiais), da polonesa Katarzyna Mirczak – trabalho composto por pedaços de pele humana tatuados, encontrados pelo Departamento de Medicina Legal da Universidade Jagiellonian em Cracóvia, na Polônia.

Mirczak afirma que é muito difícil resistir ao vazio que sente ao perceber quão aparente é a realidade. Quando se sai da zona de conforto, é difícil regressar e fingir que nada aconteceu.

Katarzyna Mirczak recorreu a ambas, arqueologia e fotografia, para criar o estudo. Camada por camada, o projeto despe nossa percepcão, colocando-nos frente a um objeto fechado, preservado, muitas vezes de maneira rudimentar, mas sempre com um impacto cínico e inegável. Propositalmente, Mirczak deu uma estética adocicada ao trabalho, cujas cores cativam e seduzem o espectador até que este perceba do que se trata realmente. Jogando com o contraste entre o que é visto e o que é compreendido, a artista levanta questões emocionais, provoca uma sensação de impotência e, depois, abandona o espectador – para que lide, sozinho, com as emoções.

As peças não são acompanhadas de explicações ou descrições; não há o histórico da coleção, tampouco meios de decifrar o inevitável significado das tatuagens. Mirczak introduz um novo espaço e nos deixa lá.

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