Proust, o amor na terra: Os pilriteiros

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Proust, o amor
na terra: Os pilriteiros

 

por Thiago Blumenthal

A terra que se constrói em Proust é um espaço mental (cosa mentale), onde Marcel claramente ocupa uma posição inferior, quase de alguém pouco digno de conhecer, por exemplo, Gilberte, filha de Swann. Quem, afinal, ele pensa que é para conhecê-la? Seus jantares são com sua tia, sua avó, seus pais, não com a alta sociedade e os seus artistas preferidos. Mais do que um espaço hierarquizante, subjetivo, profundo, esse é o espaço, a terra, que prenuncia muitos dos espaços efetivos da obra.

Assim como as personagens são conhecidas a partir do que se ouve falar delas, também é a terra, as viagens empreendidas, em uma tipificação do romance que se está por escrever: os es- paços são os espaços imaginados, ainda que vivenciados, assim como os amores e as relações empreendidas em toda a obra.

Não é por acaso que, após descrever a imaginação do que seja a relação de Gilberte com Bergotte, o narrador apresenta uma lista de espaços, como “catedrais, o encanto das colinas da Ilha de França e das planícies da Normandia”, em uma composição perfeita, digna de um Proust, do que se pretende projetar de dentro para fora do romance e, mais do que isso, de dentro para fora da mente de um hábil narrador que já prenuncia tantas terras e tantos afetos que serão construídos ao longo de toda uma vida – e recuperados, rejuntados, remontados.

São ideias sensíveis; cada coisa, cada modelo, cada criatura e cada espaço como uma generalidade é tratado como uma ideia sensível, que ultrapassa a mera concepção de tempo e de espaço, como se este espaço ainda por ser criado concretamente no romance, apenas em potencialização, fosse um “espaço fora do espaço”, como o tempo proustiano é um “tempo fora do tempo”. Tratemos disso com mais cuidado.

O livro de Mauro Carbone, An Unprecedent Deformation, pode nos ajudar um pouco com esse conceito de espaço fora do es- paço, em que o visível carrega consigo (e em si) todo o elemento invisível que o ser compartilha com a linguagem que está sendo ali instrumentalizada, como em uma ideia de “espaço infinito”, ligando, assim, a uma conceituação muito cara à filosofia de Merleau-Ponty. Tempo e espaço são, portanto, horizontes, mais do que uma série de coisas

dispostas a nós, leitores, e a nós, em um plano mais geral, que compartilhamos cotidianamente desses mesmos elementos: tempo, espaço e as narrativas que estamos a criar e as que estamos a acompanhar. Uma transtemporalidade e uma “transespacialidade” que caracterizam um elemento pressuposto como “raios do passado e raios do mundo aos fins dos quais pulsam as estruturas mais sensíveis”. Não é simples o raciocínio, mas também não é simples o mecanismo espacial realizado por Proust, que cria para seu Narrador uma terra infinita, mental, onde ele encontra Gilberte jantando de maneira muito natural – uma criança, veja só – com um autor de ficção.

Carbone cita o “manifesto técnico” dos pintores futuristas, de 11 de abril de 1910, contemporâneo à escritura da Recherche, destacando que, para a persistência da imagem na retina, os objetos se multiplicam e se deformam, seguindo uns aos outros, como vibrações, no espaço que atravessam. Georges Braque, alguns anos mais tarde, resumiria esse manifesto com o célebre: “o que o sentido deforma, a mente forma”. A terra está deformada, cabe a nós lhe darmos sentido.

Para Proust, trata-se, antes, de “julgar que uma criatura participa de uma existência desconhecida em que seu amor nos faria penetrar é, de tudo o que o amor exige para nascer, aquilo a que ele mais se prende e que o faz desdenhar do resto”. Desdenhar de todo o resto é desdenhar da terra real, muitas vezes da pessoa real, ou mesmo do amor real. Não “real” no sentido de “verdadeiro”, mas no sentido de sua concretude, da retina dos olhos vistos.

São ideias muito caras a Proust, a essa cosmologia da Recherche, em que tem- po, espaço, sentido e, claro, mente estão conectados a uma poderosa equação, que se expande ainda mais quando o espaço da imaginação se presentifica, como no momento em que o Narrador encontra Gilberte pela primeira vez.

A sebe entremostrava no interior do parque uma aleia bordada de jasmins, amores perfeitos e verbenas, dentre os quais abriam uns goivos a sua bolsa fresca, de um róseo odorante e fanado de velho couro de Córdoba, enquanto pelo caminho serpenteava uma comprida manga de regar, pintada de verde e que, dos pontos onde tinha orifícios, erguia por sobre as flores cujo aroma impregnava com sua frescura o leque vertical e prismático de suas gotículas multicores. De súbito parei, não pude mais me mover, como acontece quando uma visão não se dirige apenas a nossos olhares, mas requer percepções mais profundas e dispõe de todo o nosso ser. Uma menina de um loiro-avermelhado, que parecia voltar de um passeio e que tinha na mão uma pá de jardinagem, olhava-nos, erguendo o rosto salpicado de manchinhas cor-de-rosa. Seus olhos negros fulguravam e, como eu então não sabia, nem o aprendi depois, reduzir a seus elementos objetivos uma impressão muito forte, como não tinha suficiente “espí- rito de observação”, como se diz, para poder isolar a noção de sua cor, durante muito tempo, de cada vez que pensava nela, a lembrança do fulgor de seus olhos logo se me apresentava como de vivíssimo azul, visto que ela era loira; de modo que, se acaso não tivesse uns olhos tão negros — coisa que tanto surpreendia ao vê-la pela primeira vez —, eu não teria ficado, como fiquei, mais particularmente enamorado, nela, de seus olhos azuis. (SW, p. 101)

Nós, leitores, ainda não sabemos que se trata de Gilberte. Estamos nos arredores de Combray, justamente pelo caminho de Swann (Méséglise), em Tansonville, e é por esse caminho que devemos recuar um pouco antes de chegar a Gilberte em si. Primeiramente, há uma imagem muito linda, que é a da contemplação dos pilriteiros, que persegue o leitor de maneira sutil. Diz Marcel que a paixão por esses pequenos ar- bustos de florzinhas brancas ou rosadas começou durante o “mês de Maria”, na igreja, estendidos em “pequenos tufos de botões de alvura deslumbrante”. Atribuía o jovem Marcel àquela decoração florida um elemento da própria natureza, que constituía uma diversão popular e uma solenidade mística, de silenciosa imobilidade, com um odor que era quase como um murmúrio de sua intensa vida, com que vibrava o altar, como uma sebe agreste visitada por vivas antenas, nas quais a gente pensava ao ver certos estames quase vermelhos que pareciam haver guardado a virulência primaveril, o poder irritante, de insetos agora metamorfoseados em flores. (SW, p. 85)

Insetos metamorfoseados em flores. Ora, não é da terra em constante transformação, desta vez da natureza, que está a tratar o jovem e contemplativo Marcel? Vai-se criando, assim, toda uma concepção espacial que pertence mais ao sentido do que à geografia, à cartografia, de forma concreta. Como um mapa dos sentidos onde os pilriteiros, se olhados com bastante detalhe, parecem ter anteninhas, que são insetos fora de estação. Ou como o odor, católico, puro, ainda que inebriante, da catedral de Combray, que deixa o narrador aturdido por alguns instantes.

E é sob uma sequência de altares, que forma a sebe pelo caminho de Swann, que se dá o primeiro encontro de Gilberte e Marcel. “O sol pousava na terra um quadriculado de luz, como se acabasse de passar por um vitral.” Não sabia o que fazer; com o pensamento perdido sob o odor dos pilriteiros, fazia-se bater o coração. Chamando-os de “obras-primas”, que a gente pensa ver melhor depois que deixou um momento de contemplá-las, desperta um sentimento vago e obscuro, que não sabe ainda nomear, mas totalmente preenchido pelas plantinhas.

Os pilriteiros anunciam, de algum modo – e aqui o termo “anunciação” tem algo de religioso, uma vez denotado o caráter católico da planta –, a aparição de Gilberte. Como se o espaço da imaginação, a terra, enfim, desse vazão ao espaço real tantas vezes sonhado, o do encontro concreto. A sebe que deixa entrever uma “aleia bordada de jasmins, amores perfeitos e verbenas” também deixa entrever uma menina de um loiro-avermelhado que os observa do outro lado, “erguendo o rosto salpicado de manchinhas cor-de-rosa”. Não seriam as mesmas manchinhas cor-de-rosa dos pilriteiros que momentos antes o avô de Marcel chamou atenção: “Tu, que gosta de pilriteiros, repara neste pilriteiros cor-de-rosa; como é bonito”?

Terra e afetos se fundem na Recherche de modo a criar uma relação causal, circunstancial, como se o narrador e os personagens aos quais está ligado estivessem condicionados aos lugares por onde passam. Os sentimentos, uma vez fundidos no coração através de um jogo entre mente e coração, se confirmam no estar aqui-agora, como se o mundo estivesse a nosso dispor, tudo encaixado a fazer um sentido que confirme, para o bem e para o mal, nossas expectativas, nossos sonhos, nossos amores.

 

Thiago Blumenthal é professor doutor do Mackenzie

 


Originalmente publicado na edição Terra
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