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PORTFOLIO: Gabriela Machado

Quando a pintura e o samba se cruzam e pintam

Por Frederico Coelho

 

Há alguns anos Gabriela Machado encontrou um novo espaço criativo em sua vida. Ao lado da pintura – ofício que vive intensamente na beleza bucólica de seu ateliê – ela elegeu a música como outro cerne de sua relação com a arte. Mas não é qualquer música. É o samba, e mais especificamente o samba que emana da batida do pandeiro, que, assim como suas tintas nas telas em branco, espalha sua vida rumo ao mar do prazer estético. É nas rodas de samba, na sua prática comunitária, democrática, sem hierarquias e organizada apenas pelo intuito da alegria sonora, que Gabriela passa seus dias quando não está pintando ou vivendo o lado cotidiano de sua vida.

Lembremos que o samba e as artes visuais sempre foram parceiros felizes no Brasil. De Heitor dos Prazeres e Di Cavalcanti a Hélio Oiticica e Carlos Vergara, esse diálogo criativo resultou em belos momentos. No caso de Gabriela, o samba impregnou seu olhar para o mundo, batizou suas telas com nomes de cabrochas, lhe mostrou as gingas e as filosofias de vida que só os sambistas atingem em formato sublime e, ao mesmo tempo, popular. A beleza de Cartola ou Guilherme de Brito, a crueza de Nelson Cavaquinho ou a assertividade de Candeia entraram em sua vida e vazaram, em todos os sentidos, nas suas tintas.

Essa relação estreita entre música e pintura se torna óbvia quando evocamos uma palavra em comum para ambas: ritmo. O ritmo da música e o ritmo da pintura são elementos fundamentais em qualquer composição. Ambos nos remetem a jogos temporais e espaciais em que a dinâmica ou a cor regem contrastes entre cheios e vazios, entre lento e veloz, entre claro e escuro, entre dobras e recuos. Músicas e pinturas são arranjos cuidadosos de ocupação de espaços – sejam sonoros, sejam pictóricos.

Uma das primeiras apropriações que podemos fazer da pintura abstrata de Gabriela diz respeito ao seu ritmo de cores e à sutil observação do caminho que elas se-guem, esparramadas em telas de tamanhos variados. Em seus amplos fundos brancos, as cores ditam o ritmo do olhar como partituras dessa música silenciosa e, contraditoriamente, explosiva.

Essa explosão sincopada e essa abundância de cor em um espaço limpo e equilibrado são movimentos que fornecem a base para sua Força Bruta. E aqui, esqueçamos todos os sentidos negativos ligados à derivação de uma brutalidade. No trabalho de Gabriela, Bruta é a matéria cor em sua plena potência física e poética. Bruta é a força que nos move quase inconscientemente para um mundo onírico, de puro prazer das formas, em detrimento do circuito opressor diário do real ou do documento. Como na roda de samba, entramos na pintura de Gabriela sem saber a que horas vamos sair, pois são espaços cujos regimes são os do prazer. É esse o Bruto que toma os sentidos e nos arremessa para uma zona em que cada um de nós pode se desarmar dos lugares comuns e inventar novas narrativas sobre a vida e as cores.

Espalhada, orgânica, em movimento, a ocupação do espaço em suas telas pode, quem sabe, parecer gratuita na sua sinuosidade sensual. Não atravessemos o samba. Essa ocupação é, ao contrário, fruto de uma relação íntima e delicada de Gabriela com o seu ofício. Suas pinturas nos apresentam os meandros desse embate diário do pintor com cores, pigmentos, óleos, resinas e texturas. Na composição aberta, espontânea, em progresso, suas cores não competem, se abraçam. Aos poucos as formas dão as mãos e se reinventam nesse lento caminho da mistura. Em um trabalho paciente, a pintora aplica camadas de cor em suas telas e as deixa repousar em pleno processo de entrosamento. Assim, as grandes manchas de cor ganham intensidades diferentes a cada operação. Aquilo que parece ser traços velozes é, na verdade, caminhos da cor maturados com a calma de um fim de tarde.

No atual contexto da pintura brasileira, Gabriela Machado traz em seu trabalho uma afirmação da abstração em contraponto a realismos e perspectivas fotográficas do mundo. Sua abstração, porém, não se fecha em diálogos internos da forma ou silêncios monocromáticos. Suas telas de pura cor em movimento oferecem o frescor de uma narrativa encapsulada, prestes a eclodir em frente aos nossos olhos. Há nos trabalhos e na obra de Gabriela Machado uma alegria incontida de braços dados a uma fruição contemplativa. Alegria e contemplação que nos remetem ao prazer da pintura, ao vitalismo da arte. Talvez resida aí que reside essa força bruta que nos leva a suspender alguns momentos da vida prática para mergulhar em uma exposição de arte. Ou em uma roda de samba.

 

Frederico Coelho é professor de Literatura na PUC-Rio, escreve ensaios, artigos e textos sobre música, literatura, artes visuais e história cultural brasileira, entre eles o livro Pintura Brasileira Séc. XXI (Cobogó, 2011).

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