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Pode vir quente

por Bárbara Mastrobuono

O ar da cidade de São Paulo tem grãos de pó em peso diferente do de outras cidades. Você consegue esticar os dedos e tocar na aridez que está respirando. Uma estrada de interior, mas no coração escorrido da cidade. E a terra não é marrom. A terra é cinza e cor de rosa.

Ela começa a contar da vez que ficou presa para fora do albergue. Era de noite, falou, e ela, cadeirante, não tinha conseguido entrar. Passava vontade de ir ao banheiro e gritou, gritou, mas ninguém ajudou. Até que começou a urinar. Enquanto contava a história, retorcia o corpo dentro da cadeira para conseguir tirar as calças e colocar
o pinto para fora. Começou a se urinar. Contava e contava e, enquanto contava, escorregava da cadeira e caía dentro da poça de urina. Deitada no chão, contava de quando ninguém a ajudou a se levantar de uma outra poça de urina, em uma outra noite. Nós assistíamos, dentro daquele quarto de cimento. A urina respingou contra minhas pernas expostas, o dia estava quente, estávamos todos apinhados. Foi só quando as outras performers a ajudaram a se levantar que entendi que era para termos interferido.

A parte mais bonita do calor do verão é a noite. Você sai na rua e o ar está denso contra seu corpo. O calor nos contém. Nele estamos juntos, como que envoltos pelos braços gordos de uma mãe.

Meu telefone toca e minha amiga pede para eu correr, que a polícia vai fechar o metrô. Saio correndo pela escadaria, já estou cansada antes mesmo de começar. Vejo os policiais parados perto das portas de vidro, mas consigo sair tranquilamente antes que as fechem. Encontro minha amiga e alguns metros à nossa frente está o corpo da manifestação. Atrás dele, um cordão de viaturas policiais. Atrás delas, um choro de pessoas. Atrás delas, nós. Falo para minha amiga para ficarmos sempre um pouco atrás. É que tenho medo de polícia.

Descemos a rua pelo lado esquerdo, para termos uma rota de fuga por dentro das paralelas à Consolação, caso dê merda. Não entendo como, mesmo com o estalo das barricadas de fogo e com os gritos dos nossos, ainda estejamos todos em tanto silêncio. As motos da polícia sobem, nos fecham por trás, ligam, descem de novo para frente, estamos livres. Descemos descemos descemos. Essa história todo mundo já sabe como acaba.

Outra história.

Quando fazia muito calor na praia, a gente passava o dia inteiro deitado no chão da varanda, em cima do piso de cimento queima- do. As dobras do meu corpo se colavam umas às outras e, a cada dia, eu descobria um pedaço de pele nova em mim. A minha nuca estava sempre molhada e eu sentia aquela fome boa de corpo forte que entrou no mar. Na praia, todos os corpos são fortes e cansados e todos os lábios têm gosto de sal. Eu era triste porque era criança, mas era feliz também, porque estava quente e eu estava deitada no chão e a porta estava sempre aberta. Na praia todos os corpos são queimados e todos os lábios têm gosto de primeiro beijo.

Eu acordo com a porta do meu quarto aberta. No quarto ao lado, a menina que mora comigo procura alguma coisa. Chamo o nome dela. Ela me pergunta se eu já vi quem é o novo presidente dos estados unidos. Há alguns meses vinha falando a qualquer um que me perguntasse que os estados unidos nunca elegeriam uma mulher presidente. Deitada na cama, de olhos abertos, pergunto a ela se o Donald Trump ganhou.

Hoje em dia não consigo mais ficar deitada no chão de cimento queimado porque em geral estou no trabalho. No trabalho nunca sei se está quente ou frio porque lá o ar-condicionado está sempre ligado. Eu gosto quando faz muito calor porque aí me sinto de férias, mesmo saindo do trabalho às 19h e voltando para casa para trabalhar mais. No caminho até a estação de metrô consigo sentir aquele gosto de primeiro beijo nos lábios e me pego contando quantos dias de férias ainda tenho, mesmo que lá dentro eu já saiba que a resposta é nenhum.

No trio elétrico elas dançam com os pés apoiados no guarda- corpo enquanto giram o cabelo de um lado para o outro. O calor faz a camiseta colar nas minhas costas. Meus pés queimam dentro dos sapatos, jogo meu corpo de um lado para o outro em convulsão. Nos lavamos juntos dentro do ar embaciado. Algumas estão peladas e algumas com blusas rasgadas, e duas delas cantam no microfone. “Ainda mais da sua laia De raça tão específica Que acha que pode tudo Na força de deus e na glória da pica”. No fundo da praça as pessoas passam, olham para elas e para nós. As luzes dos postes são fracas e não nos iluminam direito, ficamos retorcidos
no escuro quente, à nossa frente o trio elétrico estacionado parece coberto de pó. “Não tem deus Nem pátria amada Nem marido Nem patrão O medo aqui não faz parte do seu vil vocabulário Ela é tão singular Só se contenta com plurais Ela não quer pau Ela quer paz. Gritamos até perder a voz”.

Essa não vou saber contar direito, é de um amigo meu. Ele estava andando e, ao virar uma esquina, viu três homens e um menino com uma faixa. “No discurso, a presidente conservadora negou ter caído nas mãos de uma seita e de ter realizado rituais na residência presidencial, a Casa Azul, como afirmam vários jornais”. Ele me mostrou a foto da faixa, mas eu não entendi o que estava escrito. Eles haviam usado outro alfabeto.

“O que será que a Dilma está fazendo agora?
 Tomando champaign e chorando no seu luxuoso triplex. Ta com o mito no triplex dando bem muito Enfiando um pi.ru de borracha no Lula Comendo vendo TV Se masturbando? EM PARIS CURTINDO O DINHEIRO DESVIADO DOS OTÁRIOS Batendo uma Correndo do diabo Pensando na gente, eu acho”.

As férias eram uma espécie de estado de exceção na nossa vida. Estado de sítio. Tudo ficava suspenso no ar, equilibrado nos nossos corpos pelados, escorrendo por nossas coxas suadas. Cada um de nós, deitado em um colchão no chão com mais cinco crianças no quarto. Está tão quente que você não consegue fechar os olhos. Em algum lugar do quarto um dos seus primos ronca e suas pernas coçam contra o lençol áspero de elástico. Vaza luz debaixo da fresta da porta. Ela pisca toda vez que uma sombra de pés atravessa rapidamente o corredor. A voz dos adultos conversando na sala vem de mil anos de distância, não dá para entender nada do que estão falando, mas você os ouve rindo. Amanhã um deles vai entrar no quarto e acender a luz e mandar todo mundo acordar que já está na hora de tomar café da manhã. O ar do ventilador finalmente chega em você. De olhos abertos no escuro, você espera em silêncio todas as mudanças que estão por vir.

Se todas as previsões se confirmarem, 2017 quebrará o recorde de 2016, que quebrará o recorde de 2015. Que por sua vez bateu 2014 como o ano mais quente da história. El Ninõ não explica altas.

Beija, beija, tá calor tá calor. Não quero só beijar, mas também fazer amor.

Parou entre uns edifícios mostrou todos os seus orifícios. Ela é diva da sarjeta.

Seu corpo é uma ocupação.

 

 

 

Citações retiradas de:

“Mulher”, MC Linn da Quebrada

“Beija Beija”, Furacão 2000

“Que será que a Dilma está fazendo agora?” Yahoo respostas

“Presidente sul-coreana aceita ser investigada em escândalo político” G1

“Por que 2016 tem tudo para ser o ano mais quente da história” Jornal Nexo

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