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PINDORAMA, índios e o brasileiro

(…) Dois equívocos (1) e um enigma intitulam o presente artigo. O primeiro equívoco é imaginar que o termo tupi-guarani Pindorama fosse o nome que precedeu BRASIL (…)

por Shogyo Gustavo Pinto

Sempre tive um enorme preconceito em relação a qualquer tipo de coisa relacionada aos cultos africanos da Bahia. Preconceito esse, advindo de minha total ignorância no assunto, e por nunca ter tido um contato próximo.

De férias em Salvador, em setembro desse ano, me deparei com a figura e toda a simbologia do Exu, na casa de Jorge Amado, o que foi uma enorme surpresa, pois me foi ensinado, dentro da minha educação católica de araque, que Exu era uma coisa ruim, do mal, quando na verdade ele é o abridor de caminhos, a divindade da comunicação. Aquilo me deixou muito intrigado e fui ler a respeito do candomblé.

Como nasci e vivi até meus 24 anos em Ribeirão Preto, no interior do Estado de São Paulo, uma terra com uma cultura popular difícil de ser encontrada, pois, a pouca caipira que existiu ali, formada pela junção das culturas indígena, negros e portugueses, foi de- vastada pelo avanço econômico da cana-de-açúcar. Para fazer essa edição da revista, tive que viajar pelo Brasil para conhecer alguns lugares fundamentais que ainda não conhecia, para tirar algumas dúvidas que me perseguiam. De Salvador aluguei um carro e fui para o recôncavo, me baseando em Cachoeira. Lá tive um impacto muito profundo e silencioso, mas não consegui identificar o porquê. Esperei vir.

Lendo e me informando sobre o candomblé – seus cultos, suas crenças, a diferença
da umbanda etc., meus amigos cachoeiranos Leci e Athos me falaram a respeito da Irmandade da Boa Morte, e me apresentaram ao Valmir, “o único homem da irmandade”, a pessoa que representa as irmãs com alma profunda de Cachoeira, com total dignidade.

Ao término de minha conversa com o Valmir, na beira do Rio Paraguaçu, quando ele me falou da importância do ciclo da cana-de-açúcar para a economia da cidade, concluí, silenciosamente: ela, a cana do interior de São Paulo, que havia liquidado a cultura popular daquela região, havia me levado até aquele lugar, até aquela cidade e aquelas pessoas, para transformar toda essa busca, na minha busca pessoal pelas minhas raízes brasileiras.

 

Valmir, como você acha que aconteceu o sincretismo da Irmandade?

Tudo começa pela busca da liberdade de expressão dos negros escravizados em querer celebrar e dar continuidade à sua religiosidade, ao seu credo. Imagina que o negro que era raptado na África para ser escravizado no Brasil, era um celebrante dos Voduns, Inquices e Orixás, e, de repente, chega aqui e encontra uma religião que não é sua, um deus que não é o seu, mas faz uma busca usando outros termos e outros nomes. Aí o branco diz: “Se ajoelhe porque você vai venerar nosso deus. Caso contrário, você é considerado pagão, vai para o inferno e pode até ser morto. Então ele diz: “Vou ajoelhar, mas eu vou chamar Jesus Cristo de Oxalá, porque Jesus Cristo é Oxalá, o senhor maior”. E o cara diz: “Não tem problema, desde que você se ajoelhe diante dele”. Na verdade, ele estava se ajoelhando diante do deus católico simbolizando o próprio deus dele, ou a própria veneração dele. Ou seja, Oxalá é Oxalá, Jesus Cristo é Jesus Cristo. Essa que é a grande verdade. E isso assegurou a ele um sentimento de estar dando continuidade à sua ancestralidade, à veneração de seus povos, à sua forma de cultuar. Isso aconteceu na Bahia de uma forma muito forte, que acabou disseminando o que a gente chama de sincretismo religioso. Esse sincretismo é justamente você figurar e simbolizar um deus que não é seu. Uma religião que não é sua.

 

Engraçado, porque o candomblé é bem hermético em suas crenças, diferente da umbanda.

O candomblé é a forma de cultuar, até porque a palavra quer dizer “casa de iniciação de jovens”. Ele acaba ganhando uma força coletiva a partir dos navios negreiros. E depois, quando chega na senzala, as venerações vão acontecendo de uma forma muito acanhada, muito escondida ainda, mas vai se consolidando e se fortalecendo nas matas, nos grandes quilombos, e acaba ganhando uma leitura com mais clareza para nós nos terreiros de candomblé, ou dos Ilê Axé, como chamam.

Hoje em dia é possível chegar no Ilê Axé, e ter no mesmo espaço a celebração de vários povos juntos, que é a celebração da nação. Vou citar uma, porque é a minha, que é a nação de Angola. Você chega em uma casa de nação de Angola, e encontra imagens religiosas de matriz católica, o assentamento de caboclo, que é a celebração indígena, o assentamento de Ogum, de Iansã, um assentamento do preto velho e da mãe preta – existem vários nomes, a depender da questão de nação –, e isso é a força coletiva de cultuar, ou
a busca da liberdade de expressão. Aí alguém pode dizer: “E isso hoje é necessário? A escravidão já foi abolida, o Brasil colonial já acabou”. Sim, o negro tem a força de preservar e passar esta cultura adiante, porque nunca existiu uma bíblia-guia, um livro para nos guiar dentro de um processo de escrita. Tudo foi feito na oralidade, passado de pessoa para pessoa. Assim, isso é preservado até hoje, da mesma forma que nossos ancestrais nos deixaram.
A umbanda, no Brasil, é uma releitura para consolidar o processo de religiosidade vindo de vários continentes e povos, e é transformado para facilitar o acesso às pessoas na sociedade. Ela é uma leitura que reúne a forma de celebrar dos terreiros de candomblé. As duas religiões celebram suas ancestralidades. A umbanda celebra os espíritos dos caboclos, o catolicismo, o espiritismo de Alan Kardec. Ela tem a força de tornar todas essas formas de celebrar em uma só.
Já a Irmandade da Boa Morte, foi organizada por mulheres de religião de matriz africana, Iyá Nassá, Iyá Akalá, e Iyá Nassô, as três irmãs consideradas mulheres da nação Nagô, que consolidaram um terreiro de candomblé na Barroquinha, em Salvador, ao lado da mesma capela em que elas veneravam a Nossa Senhora da Boa Morte e Glória. Então podemos dizer que há uma duplicidade da forma de celebrar católica e da forma de celebrar afrodescendente. Podemos sinalizar que esse duplo pertencimento, tornou, de certa forma, essas duas religiões em um só conjunto de fé e religiosidade.
Elas nos deixaram o legado da liberdade de expressão. Ou seja, quiseram mostrar que é possível ter quantas religiões você quiser, só que fazendo isso de uma forma tolerante e com respeito. Elas já diziam isso no passado, mas hoje as pessoas estão fazendo o contrário, ou seja, dizem que você é isso porque acredita naquilo, quando isso, na verdade, é tirar a nossa liberdade mais uma vez. Do terreiro da Barroquinha acabou nascendo a Casa Branca, que é um terreiro de muita força, e, a partir dele, outros e outros terreiros. Todos a partir do grito de liberdade de expressão dessas mulheres.

 

Qual você acha que é o papel da fé, independentemente da crença ou religião, para os negros no Brasil?

O papel da religião é a consolidação do processo de africanidade, é a celebração das nossas raízes, a nossa força. A gente se prende na nossa fé, que nos dá força e nos fortalece para suportarmos a escravidão que ainda está presente na sociedade, com muita força, mas de outras formas e outras leituras. A escravidão do preconceito, da intolerância, da falta de respeito, do olhar para nossa estética e a criticar, pela nossa cor, pelo nosso nariz, pelo nosso cabelo, pela nossa sexualidade. A nossa fé nos guia e nos norteia. Mas os brancos já perceberam isso, e querem tirar da gente. As igrejas, comendo pelas bordas, estão tentando interferir na nossa crença, na nossa fé e na nossa religiosidade de uma forma perversa, chegando com sua religião, e querendo, de qualquer forma e qualquer maneira, nos converter. Mexendo diretamente na nossa autoestima, na nossa forma de vida, dizendo que o que acreditamos está errado, o que é, mais uma vez, escravizar.

 

Por que você acha que as crenças da Bahia, sendo originalmente brasileiras, não se estenderam pelo país, sendo que representam o jeito de praticar a fé que mais se assemelha a quem somos, à nossa essência e identidade?

Ela não avança porque o Sul do país nunca aceitou nada que viesse do negro; nada do africano para eles era possível. Até porque o negro já não era considerado ser humano, que dirá ter direito a qualquer tipo de sentimento ou celebração. Por isso ficou retida na Bahia, principalmente na região do Recôncavo, porque aqui se tornou um espaço de resistência muito forte. Mas, com o tempo, muitos pais e mães de santo saíram daqui e, mesmo com toda a falta de aceitação, com todo o preconceito, conseguiram ir a São Paulo, ao Rio de Janeiro, Minas Gerais e muitas outras cidades, e lá consolidar espaços religiosos, que são os terreiros dessas cidades. Eles conseguiram não só disseminar a questão da religiosidade, mas mostrar para as pessoas que a Bahia e o Recôncavo não tinham nada a ver com o diabo, como a Igreja Católica fez questão de criar no imaginário dos seus seguidores, entre os séculos XVI e XVIII. Nunca existiu a ideia de diabo na África, o nosso Exu não é diabo como a Igreja sinaliza.
Pela força, que as outras religiões perceberam, da relação de Exu com a comunicação e
a abertura de caminhos, a forma de neutralizar esse orixá foi chamá-lo de diabo. Porque, chamando-o de assim, todos passariam a odiá-lo e a vê-lo como um membro do mal. Então, essa foi uma das primeiras formas que a Igreja encontrou para enfraquecer a celebração de matriz africana. E, infelizmente, ainda existem também negros que trazem essa leitura até os dias de hoje. Mas, graças a deus, ainda temos aqui muitos irmãos que lutam para celebrar essa liberdade e essa força.
A política brasileira é muito perversa, porque vivemos em um país da política dos brancos.

Temos pouco tempo de algumas vitórias, avançamos em alguns projetos de lei, de preservação, de conservação, e agora existe uma nova política no Brasil que, de repente, quer destruir todos esses avanços, todas essas conquistas. Por isso que tenho temor dessa nova forma de política mundial. O cara elege um cara nos Estados Unidos que tem uma leitura totalmente esbranquecida, intolerante e homofóbica. Aí, no Brasil, você tem hoje um presidente que temos que ter muito cuidado para lidar, para que ele não comece fazendo o que estava querendo, como tirar o Ministério da Cultura, essas coisas que, para a gente, é tentar tirar todas essas conquistas.

 

As mulheres tiveram um papel fundamental na luta contra a escravidão, porque, os homens eram destina- dos ao trabalho braçal, na lavoura, e as mulheres ao trabalho na casa grande, ao mesmo tempo elas estavam ocupando as ruas. A formação da Irmandade parte daí?

Sem dúvida. Se pensarmos na libertação dos portugueses que nos escravizavam, Maria Felipa entra como uma grande mártir dessa luta. Se a gente for justamente no combate, lembramos de Maria Quitéria, que se vestiu de homem para esse combate. Estou falando da briga e do combate político contra os portugueses, que não deixa de ser contra a escravidão. Porque os portugueses dominavam o comércio e a sociedade. Eu tenho certeza que lá na revolta dos alfaiates havia mulheres presentes, na luta dos muçulmanos havia mulheres presentes. Então, a Irmandade da Boa Morte, na verdade todas as irmandades, fazem parte de um movimento pacífico contra o processo escravagista – pacífico por ter o cunho católico, mas que não deixava de ser uma guerrilha, não deixava de ser um momento de luta, só que, dessa feita, claro, mais estratégico, mais pensado. A Irmandade da Boa Morte, na verdade, vai se organizando ainda nas senzalas. As mucamas já se aproveitavam do acesso que tinham à casa grande para fomentar esse movimento libertário.
Essas mucamas livres se tornavam mulheres de ganho ou ganhadeiras, que é a comerciante ambulante. E a partir daí elas começam a ser empreendedoras, a adquirir bens, e, portanto, a comprar a alforria dos negros.

Foi quando começaram a adquirir bens – joias, terrenos, roupas boas – que passaram a ser consideradas, em 1810, “negras do partido-alto”. Começaram a ter uma colocação em uma sociedade branca, patriarcal e machista, através do empoderamento conquistado a partir da comercialização. E foi através desse processo que elas adquiriram o terreno na Barroquinha, em Salvador, onde edificaram seu primeiro espaço religioso de cunho sincrético, de cunho libertário, que é a igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e Glória, e ao lado dessa igreja nasceu o primeiro terreiro de candomblé organizado por mulheres na Bahia como mencionei anteriormente.

 

Quanto tempo separa a fundação da igreja à do terreiro, você sabe?

Acredito que isso não levou muito tempo, porque as religiões, as formas de cultuar, dependiam umas da outras. Independentemente do terreiro estar organizado ou não, elas já eram mulheres do Axé e, de certa forma, já tinham esse duplo pertencimento cultuado de alguma forma.

 

Reparei que as irmãs são muito vaidosas, usam roupas elaboradíssimas, e muitas joias. Qual é o papel da indumentária em todo o culto da Boa Morte?

Elas são mulheres que carregam, ainda hoje, o espírito da realeza. São as nossas rainhas negras. Podemos dizer que são mulheres que, sendo muitas delas rainhas de sua realeza
e, portanto, livres nos seus países, tinham uma posição de liderança, política e religiosa,
 e, quando raptadas para serem escravizadas, foram tiradas de seu habitat natural, onde poderiam ser desde agricultoras e lavadeiras a princesas, rainhas. Além disso, elas contêm esse espírito da realeza porque, muitas delas, se tornaram negras do partido-alto por conta do processo libertário.

 

Cachoeira é fundamental no processo de independência do Brasil, porque foi daqui que saiu o bando em direção à Salvador para, no dia 2 de julho de 1822, conseguir sua inserção na unidade nacional brasileira, durante a guerra da independência do Brasil.

Sim, primeiro aconteceu uma reunião para tentar organizar o movimento em Santo Amaro, que não foi muito para frente. Quando chega a Cachoeira, acontece um encontro dos políticos da região na Câmara dos Vereadores, e, a partir disso, consolida-se o processo
do reconhecimento a Dom Pedro I. E, a partir desse reconhecimento, começam os passos para a independência da Bahia. Porque, depois dessa reunião e do reconhecimento de Dom Pedro, no dia 25 de junho de 1822, oito ou dez dias depois eles começam a organizar o que a gente chama de Bando Patriota, que são os homens que realmente resolveram lutar contra a coroa portuguesa. Eles saem daqui e passam por Saubara, Santo Amaro, São Francisco do Conde, Candeias, Simões Filho e Salvador – e lá se encaminha toda essa luta, depois de reunir muitos soldados. O processo só vem a se consolidar em Salvador, no dia 2 de julho, como você disse. Claro, depois de envolver Itaparica e envolver toda a Bahia. Aqui dá-se esse grito, aqui tem essa reunião, aqui tem esse desfecho, mas você não vê muito isso nas leituras didáticas…

 

E por que isso realmente não nos é ensinado nas escolas?

É aquilo que eu tinha dito antes. Não há um interesse do Sul do país, não há um interesse do branco em mostrar que, em uma cidade humilde e singela da Bahia, aconteceu tudo isso. Acham melhor destacar São Paulo, que é a sede econômica do país, que é a maior cidade, a maior população.

 

Muita ignorância nossa, porque eu acredito que Cachoeira seja o berço da cultura brasileira. Se o samba nasceu aqui, toda a nossa cultura parte disso, tudo se origina daqui.

Quando os portugueses invadiram o Brasil, o primeiro local onde ancoraram foi em Porto Seguro, aqui na Bahia. Depois com a chegada da cana-de-açúcar e dos negros escravizados, deu-se todo o processo. Quando esse período da história termina, os portugueses voltam para Portugal, e os negros ficam aqui. São esses negros que consolidam o processo social e econômico da região. Os negros é que deixam para nós todo o legado cultural, econômico e religioso. Mas, como não foram os alemães ou os portugueses, e sim os negros, nada disso é visto com respeito e devido valor. E, por conta disso, querem apagar com uma borracha a nossa história. Mas não conseguem porque foram as mãos negras que construíram os prédios, foram as mãos negras que ajudaram a consolidar o processo econômico, foram as mãos negras que bateram os primeiros tambores, foram os pés negros que fizeram os primeiros sambas. Isso não se apaga. Então, esse é o nosso papel, de quem resiste nos terreiros de candomblé, de quem resiste nas irmandades negras, de quem resiste nos grupos de capoeira, nos grupos de maculelê, nas rodas de samba, nas músicas afro – é tentar, de certa forma, proteger este legado. Nós, negros, somos os guardiões da nossa própria cultura.

 

Quando você diz “nossa própria cultura”, você quer dizer a cultura de todo país, de brancos, japoneses, né? Não só de vocês, negros.

Exatamente. Estou falando do processo cultural deste país.

 

Você acredita que ainda vivemos sob valores coloniais?

Com certeza.

 

Por quê?

Porque existem leis que não são obedecidas, no que diz respeito à cultura afrodescendente. Muitas coisas você vê que são preservadas à risca, mas, quando você vai ver, têm uma conotação branca. Ainda achamos que estamos vivendo numa província, e ainda, muitos, agimos como provincianos, quando na verdade isso já passou. Esse período já passou, os portugueses já foram embora; o que era província é cidade, o que era cidade é estado, é o país, e somos nacionalizados, de um país laico, de um país que tem uma Constituição. Só que tudo isso precisa ser revisto. A gente precisa, na verdade, voltar a essas leis que estão lá na Constituição para que sejam obedecidas.
Os livros didáticos também contam outra história e ensinam para nossas crianças uma história diferente da que de fato aconteceu. Como disse, não existe um livro que registre a história afrodescendente; cada um fala o que quer e o que deseja. Principalmente, de tudo que lhe falei, na questão da diabolização da religiosidade, da forma de preservação, de conservação, e aí acabamos nos tornando vilões.
Saímos da Irmandade para cinco minutos de caminhada sob um sol torturante, de fim de primavera, no sentido do rio Paraguaçu.

Eu quero te apresentar o rio Paraguaçu, que em tupi-guarani quer dizer grande rio, grande água. Ele tem seiscentos quilômetros, três bacias – estamos na bacia baixa. A bacia média é a que está acima da barragem da Pedra do Cavalo, que foi construída na década de 1970 para conter as cheias do rio, mas hoje gera energia. Infelizmente isso acabou atingindo o rio, que era de água doce, e hoje é salobro. Desde então ele vem morrendo, porque muitas pessoas compraram terras, arrancaram árvores e mexeram na fauna de onde eram os seus afluentes. O Paraguaçu une Cachoeira e São Félix, como um cordão umbilical, cidades que têm historicidades muito fortes no que diz respeito ao processo econômico, político e religioso do Brasil.
Cachoeira se desenvolveu a partir do século XVI, com a economia da cana-de-açúcar. O marco é 1531, com a chegada do fidalgo português Adorno e o seu Martins, que já vêm com um pensamento de utilizar essa parte do rio para o plantio. Então ele instala seu primeiro engenho aqui, e começa trazer os negros, e, a partir daí, outros portugueses começam a invadir essa região, que se torna uma grande produtora de cana-de-açúcar, e Cachoeira se torna a vila mais rica de Portugal fora da Europa. Daqui saiu o dinheiro com que se casaram muitas famílias em Portugal, o dinheiro que restaurou totalmente a cidade de Lisboa depois de um terremoto, como daqui também saiu o dinheiro, a título de empréstimo, que nunca voltou aos cofres públicos, para a construção da Câmara de Vereadores de Salvador.

 

E mesmo com um histórico tão rico, de tanta resistência, o nascimento do samba, e uma forte cena de reggae brasileiro atual, a cidade está passando por um processo de americanização que fica muito claro quando se anda na beira do rio, passando por todos aqueles bares.

Isso vem acontecendo já há muitas décadas, mas principalmente muito forte na década de 1970, quando as pessoas se vestiam muito com roupa de rock’n’roll, imitando a roupa dos Estados Unidos. Os Estados Unidos invadem a América Latina com suas fábricas, suas indústrias, com os filmes de Hollywood, com a Coca-Cola, com McDonald’s, com essa coisa toda, e a gente, como diz o outro, tem sempre um pedaço dos Estados Unidos na nossa cidade, no nosso país e na nossa cultura. Isso é a evolução, é o capitalismo, mas temos que ter muito equilíbrio e muito controle para saber administrar. É do interesse político brasileiro, que arrecada impostos com a grana que essas empresas trazem para cá. Tudo isso continua sendo um massacre à nossa cultura, ao nosso povo. Porque é muito violento. Muito sedutor. Mas não se preocupe, não. Vamos continuar nos encontrando, e achando formas de mandar o que é verdadeiro e autêntico para mais pessoas, por isso a importância desse nosso encontro.

 

Valmir, muito obrigado pelo seu tempo e por toda sua disponibilidade. Eu reverencio você e todo o seu povo como um pilar fundamental da cultura de nosso país.

E a você, Tomás, eu dedico muita paz, o axé e a força dessa cidade, e que a força desse rio e dessas águas te proteja e faça com que consiga organizar todas essas informações e levar para o mundo. Que é possível, sim, viver em um mundo igual; é possível, sim, aceitar o próximo na sua escolha, na sua individualidade, no seu perfil; é possível, sim, olharmos nos olhos uns dos outros, brancos, negros, cafuzos e índios, e vivermos com mais igualdade.

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