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PEQUENO MAPA DO TEMPO

Barbara Mastrobuono é editora da Pinacoteca do Estado de São Paulo, e escreveu o relato PEQUENO MAPA DO TEMPO, na revista AMARELLO.

Aqui no site você lê alguns trechos, acompanhados de fotografias que Barbara nos deu A gentileza de compartilhar.

Muito obrigado, Barbara!

“Quando ainda morávamos no prédio e minha avó emprestava um pirex ou uma caixa de sorvete vazia da Kibon para nós, ela ligava meia hora depois no interfone para pedir de volta. Preciso dela, dizia. Na casa da minha avó todos os objetos têm funções secretas que não teriam na de outra pessoa. A caixa de balas Valda serve para guardar remédio, assim como o pote vazio de iogurte Grego e as latas de panetone escondem pães que já foram torrados e agora só esperam ser comidos”.

“A dona Marta parece ter guardado tudo o que nossa família já possuiu. Um dia meu pai me levou pelo apartamento e explicou de onde veio cada um dos móveis. O gaveteiro grande veio da minha bisavó, a mesa entalhada meu avô comprou durante os dois anos em que moraram no Peru fugidos da ditadura. O quadro logo em cima, que mostra a família do menino Jesus, também foi feito por artistas peruanos e era da coleção do vovô, assim como o Volpi da Sereia e todos os outros que estão no apartamento. Uma vez, quando era pequena, um homem me falou que todas as luas em volta da sereia eram unhas que ela tinha roído e agora estavam dentro da barriga dela, e a moral da história era a de que não devemos roer as nossas unhas. Eu não roía minhas unhas e não passei a roer, mas é engraçado o tipo de besteira que os adultos contam para as crianças achando que não vão se lembrar para sempre da parvosidade deles”

“O interessante da acumulação da minha avó é que por muito tempo conseguimos fingir que era só dela. Agora entendo que, dentro da casa dela, a família inteira se comunga por meio dos objetos. Todo integrante da família tem um móvel guardado na casa da minha vó. Aquele apartamento funciona como um museu vivo de nossa trajetória conjunta. A cama de solteiro do meu pai. A primeira cama de casal dos meus tios. A cômoda vermelha que comprei para o meu primeiro apartamento, que não tinha armário embuti- do. A fantasia de carnaval da Martina (a prima alemã que morou no prédio durante seis meses em 2009), que encontrei em uma sacola que havia sido sorrateiramente enfiada dentro de um Farnese guardado no quarto dos fundos. Deixar um móvel lá é praticamente um ritual de pertencimento, e eu me senti adulta talvez pela primeira vez no dia em que liguei para minha avó e perguntei “Posso deixar o criado-mudo da menina que morava comigo aí no seu apartamento?”.

“Agora que o meu avô foi embora, aprendi que existem muitos tipos diferentes de acumulação e que, assim como olhos verdes, eles são transmitidos por genes recessivos. Minha vó era filha de acumuladores e, por casar com um acumulador, o gene sucedeu em fazer seu caminho silencioso pela nossa árvore genealógica. Agora fica claro que eu não deveria me sentir culpada por ter encontrado uma entrada de cinema de 2007 no meu quarto, apesar de já ter me mudado quatro vezes desde o ano em que fui assistir Zodíaco. Sinceramente, nunca tive chance”.

O emocionante PEQUENO MAPA DO TEMPO você lê na íntegra na revista AMARELLO, Edição Espaço, nas bancas.

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