O som da terra caindo

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O som da terra caindo

 

por Helena Cunha di Ciero
Meu pai está morto há quinze dias. Quinze dias longos. que o oxigênio custa a chegar quando acordo. Pai não combina com morte. Como se acostuma a viver sem o maior apoio que já conheceu?

As pessoas têm me dito, pelo menos uma vez por dia: sinto muito.
E minha resposta tem sido: eu também.
Mas nem sei se essa resposta dá conta do tamanho da minha dor.
Também sinto muito, vou sentir pela eternidade – qual a largura da eternidade?

Pouco posso falar sobre o que sinto.
Não tem nome.
Quando você estava doente, eu perguntava para quem já tinha perdido o pai o que eu ia sentir. Alguém me respondeu: um abismo. Talvez seja essa a melhor resposta.

Ou talvez a faxineira que me disse “meus pesos” tenha sido a mais sábia.
Ao te ver doente, fraco, eu sentia um bisturi rasgando meu coração.
Tinha dias que mal te olhava, pois não aguentava de agonia.
Mas o que dói mesmo é não poder chamar seu nome, pai. Hoje, ao entrar no carro, fiquei chamando “pai, pai” em voz alta para não esquecer o tom de voz que eu usava para te chamar.

Era de noite, chovia, e a cidade estava daquele jeito que você odiava. Claustrofóbica, cheia de carros aflitos, zonzos, iluminada pelo vermelho dos faróis, pelo negro da noite, pela vibração da metrópole que pulsa. Enquanto chamava seu nome, dirigindo sozinha, me dei conta de que nunca mais vou chamar ninguém de pai.

A palavra pai é tão pequena, mas tem uma dimensão tão grande, que chega a ser impossível falar com clareza sobre o que eu sinto simplesmente por não poder te chamar mais. É o tal abismo, Pai.

Meu pai.
Meu pai está morto há quinze dias.
Quinze dias longos.
Que o oxigênio custa a chegar quando acordo.
Pai não combina com morte.
Como se acostuma a viver sem o maior apoio que já conheceu?
É uma sensação permanente de estar mancando.
Quinze dias em que meu filho aprendeu coisas novas que você não viu, pai.
Quinze dias nos quais me lembrei, no primeiro minuto em que abri os olhos, que você não existe mais em nenhum lugar além de minha memória.

Seu lugar na mesa está vazio.
Seu armário está colorido com suas tantas camisas, e dentro dele tem uma nuvem cinza, chamada saudade.
Suas roupas estão passadas ainda, nunca mais serão amassadas, estarão eternamente endurecidas pelo ferro. Adormecidas, imóveis. Para sempre.
A dor da perda inundou a nossa casa.
E você não viu. Não estava lá para nos proteger.

Fui num velório, e a menina chorou tanto quando viu o pai no caixão.
E depois, para enterrá-lo, ela cantou a música italiana que ele tanto gostava.

Era “Volare”.
Para ajudá-lo a voar bem alto.
Enquanto isso, ele descia para o nunca mais.
Jogou a coroa de flores com o nome da família dentro da cova, para ir junto com ele. Para aquele monte de terra ficar menos marrom.
Para tingir as moléculas de areia que junto com o caixão dele iam se decompor, se misturando com a terra do mundo todo. A partir daí, o corpo dele seria do universo, poderia chegar até o deserto do Saara, aquele mesmo grão de areia que, por menor que fosse, ainda era aquele homem. Aquele que ela chamava de pai.

E, quem sabe, numa ventania, esse grão de poeira entrasse de novo em casa e fizesse um carinho no meu rosto, feito quando eu era criança.

Mas a menina era eu, o pai era você, e, dessa vez, eu não podia te contar essa cena triste – como sempre fiz com tudo o que já me tocou nessa vida.
Dessa vez eu não podia compartilhar com você isso que vivi. Eu estava só.
E senti um frio, um gelo.
Uma ausência intensa, maciça. Parecia um ferro gelado marcando meu peito. Feito marca de gado. Ferro da falta.
Eu tenho feito tudo o que sempre fiz, pai. Tenho lutado, como você faria. Esse exemplo está vivo dentro de mim. Essa parte de você é imortal. Sua garra, eu herdei.

É com ela que eu conto quando falta o ar ao ver minha mãe chorar. Quando não sei se vou suportar.
Ou quando preciso escrever, só para desabafar.

Junho de 2011

 

Helena Cunha di Ciero é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

 


Originalmente publicado na edição Terra
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