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O QUE É SER VERDE?

Se nem mesmo um cara que vai até Tuvalu é na prática 100% inocente…

Por Bruno Pesca

O que é o Homem? Essa pergunta sempre esteve, ao longo da história da humanidade, no centro do que é a própria filosofia. Aristóteles disse, 25 séculos atrás, que o Homem é um animal racional. De lá pra cá, várias definições surgiram, inclusive algumas mais cínicas, como a de Fernando Pessoa, que escreveu que o Homem é um cadáver adiado.

Mas, como a filosofia tem esse caráter de indagação eterna, e na agenda prática dos não-filósofos não há tempo a perder com essas coisas, algumas questões mais imediatas sobre o ser humano e, por exemplo, sua relação com a natureza ocupam às vezes o papel de pergunta-chave da existência.

Por razões óbvias e merecidas, tenho achado sempre bom, ultimamente, rediscutir uma dessas questões mais provocativas: o que é ser verde?

Adepto da máxima de Gandhi – “seja você mesmo a mudança que quer no mundo” –, proponho, como primeiro passo, o autoexame.

Numa tentativa de me sentir mais verde, algum tempo atrás, viajei até Tuvalu, no meio do oceano Pacífico, para entender e mostrar na televisão brasileira o caso desse pequenino país, apontado como a primeira nação que desaparecerá totalmente do mapa por conta da elevação dos oceanos causada pelo aquecimento global.

Assim como a equipe da qual fazia parte, aprendi bastante sobre esse drama numa importante conferência global climática em Copenhague, na Dinamarca, meses antes. Ali resolvemos que viajaríamos a Tuvalu para compreender melhor a questão, e assim fizemos. A viagem foi marcante, tanto pelo que vimos quanto, principalmente, pelo que ouvimos. Mas, entre o momento que embarquei no LAX (aeroporto internacional de Los Angeles) rumo a Tuvalu e o que pousei de volta nele, alguns sentimentos mudaram. Convicções deram lugar a incômodos, e o idealismo deu lugar à vergonha – confesso.

Durante certa época do ano, moro na Califórnia. Entre todos que habitamos o planeta, o povo dos EUA é, notadamente, aquele que mais consome petróleo, energia, bens de qualquer tipo, úteis e inúteis. É o que mais gera lixo e o que mais polui per capita também. Se por um lado a China torna-se o maior poluidor atmosférico do mundo, por outro esse título não é fruto das demandas individuais chinesas. Nos EUA, contudo, a demanda do cidadão comum é implacável e, como diz o ditado, uma vez em Roma torna-se muito difícil não fazer como os romanos. A elevação dos mares que deixará Tuvalu submersa é atribuída ao aquecimento global, e esse, por sua vez, estaria relacionado ao comportamento humano.

O sul da Califórnia, símbolo maior do american way of life, tem, por exemplo, mais carros do que habitantes, o que, entre outras mil coisas, ilustra muito bem essa atitude. Um amigo em Los Angeles pagou quase duas vezes o preço de seu carro para que fosse um modelo híbrido. “Não quero mais queimar tanto petróleo”, disse. Automóveis híbridos têm sido vistos cada vez em maior número na cidade, e é claro que, num lugar que respira imagem e aparência, a referência das celebridades engajadas com meio ambiente impulsiona o consumo green. Isso não parece ruim, pelo contrário.

Mas será que faz mesmo sentido, do ponto de vista ambiental, optar por carros elétricos num país em que a energia termoelétrica tem origem no carvão? O carvão contribui em muito para o efeito estufa e para o drama de Tuvalu. Além disso, contém componentes chamados de sulfetos, que, em contato com o ar, formam substâncias que contaminam os lençóis freáticos. É, portanto, altamente poluidor, e nada que lhe é associado deveria ser chamado de green. Os carros elétricos dependem de energia elétrica, que, em boa parte

do mundo, depende de carvão mineral. Esse detalhe um tanto óbvio é surpreendentemente desconhecido por pessoas supostamente educadas. É evidente que automóvel elétrico é bom, mas não há milagre: ir sozinho até um coffee shop dirigindo uma Yukon de quase duas toneladas, hábito típico da Califórnia, é sempre atestar alienação ou indiferença ambiental. A não ser que o sistema de propulsão seja aquele igual ao do desenho dos Flinstones, em que se impulsiona o veículo por meio dos pés no chão.

Numa era em que os países emergentes e mais populosos do planeta caminham para ser o motor da economia mundial, e melhoram o padrão de vida de seus cidadãos, vale a pergunta: se centenas de milhões de pessoas tiverem recursos para viver com os mesmos hábitos do cidadão do sul da Califórnia (o que parece ser a intenção das agências de marketing), será que o planeta sustenta?

Não é, então, uma questão de dinheiro. Não é porque você possui dinheiro de sobra para pagar sua conta de luz que tem o direito de deixar o ar-condicionado ligado ao sair de casa, de modo a encontrar o ambiente agradável quando voltar. É como comprar comida fresca para jogar no lixo. Essas noções básicas de civilidade são bem assimiladas na Europa, mas ignoradas nos EUA.

No Brasil e na maior parte do mundo, infelizmente, o padrão aproxima-se mais do estadunidense. Não é raro numa manhã de sábado os porteiros do prédio da zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo, “varrerem” suas calçadas com mangueiras d’água e lhe gastarem centenas de litros apenas para empurrar uma única folha de árvore até o bueiro _ entupindo-o, aliás. Em países como a Inglaterra, enquanto isso, uma atitude dessas leva os vizinhos a chamarem a polícia.

Voltando à autocrítica, um outro hábito que me condena, além do de levar a caminhonete ao Starbucks, é o número excessivo de viagens de avião. Depois da ida a Tuvalu, meus companheiros e eu resolvemos neutralizar nossas pegadas de carbono calculando quanto teríamos emitido para chega lá e plantando árvores que o compensassem. Fizemos isso. Mas logo percebi que teria que plantar a Floresta da Tijuca inteira para sustentar meu estilo de vida de forma neutra em carbono. Viajar e descobrir o mundo por si mesmo é ótimo, e seria ótimo para o mundo, em diversos pontos de vista, se mais e mais jovens pudessem fazê-lo. Mas não do ponto de vista ambiental, certamente. Alguém poderia dizer que estou sendo severo demais; porém dados são dados.

Se nem mesmo um cara que vai até Tuvalu – e posa de mocinho por isso _ é na prática 100% inocente… O importante é ao menos tentarmos, com mais inteligência e esforço, seguir aquela máxima de Gandhi.

Caso contrário, é a definição de Aristóteles sobre o Homem que parece não fazer sentido algum.

 

Bruno Pesca é economista-surfista, viajante de longa data, apresentador, produtor executivo e roteirista do programa “Não Conta Lá Em Casa” do canal Multishow.

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