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O NU EM FREUD

A inquietude do nu de Lucian Freud.

por Alessandra Modiano

A força da personalidade da pincelada nas pinturas de Freud expõe em sua plenitude o frescor da carne humana e as limitações da fisicalidade do ser humano.

O nu é um tema explorado na arte fazem muitos séculos. De fato, a descrição do “corpo sem ornamentos” pode ser percebida desde a antiguidade. Porém, ao pensar o nu na arte moderna e contemporânea, existe um artista plástico que se destaca pela forma peculiar e intensa de sua representação – Lucian Freud. O artista, falecido em 2011,foi reconhecido como um dos maiores pintores figurativos em vida e sua notoriedade é proveniente em grande parte da composição inquietante e da vulnerabilidade humana desenvolvida nas suas telas, compostas de corpos nus.

Nascido em Berlim no período entre guerras e refugiado em Londres logo após a subida de Hitler ao poder, em 1934, Lucian Freud passou a maior parte de sua vida na Inglaterra. Neto de Sigmund Freud, fundador da psicanálise, o pintor buscava escapar de qualquer relação direta de sua obra a seu avô. Porém, é difícil não relacionar a forma   como  Sigmund   Freud   buscava  quebrar  a  barreira  emocional  e  o  sofrimento  do  paciente,  a  forma  que Lucian despiu seu muso/modelo da censura social e transmitiu através da pintura a verdade crua e animal dos seres humanos, moldados pela sua consciência e pelo seu olhar de pintor.

Enquanto  jovem,  Freud  era  um  desenhista  muito  preciso e pintor  minucioso.  Sua  maturidade  se  desenvolve  a partir da década de 60 quando o artista, influenciado pelo então amigo Francis Bacon, adota um estilo de pintura livre e  intenso,  atingido  através  da  utilização  da  técnica  de impasto  e  aplicando  gradações  de  cores,  similares  aos “Old Masters”.

A partir de entao, Freud passa a pintar principalmente retratos nu e a trabalhar apenas de seu ateliê, que se torna o cenário importante da composição de sua obra e crucial na relação de intimidade entre pintor e  modelo, acentuada pela lentidão do seu processo de pintura.

Produzindo em média cinco quadros por ano, cada tela sua podia  levar  anos  para  ser concluída.  Tal lentidão  requeria  do modelo  uma  dedicação  e  determinação  de  permanecer  na mesma pose perante o pintor por um longo período de tempo, uma tarefa ardua e quase cruel. Dessa mesma  forma,  Freud  desenvolvia  uma  relação  de  intimidade  com  o  modelo,  criando  uma  curiosa  relação  entre  o retrato,  a  pintura,  o  tempo  e  o corpo  humano.

São  corpos  distorcidos,  sofridos, vivos  e  desgastados  com  o  tempo, cuja pele e a carne humana estão expostas na cara do observador, tornando a pintura de Freud singular e intensa, e muitas as vezes repelente.

Os  sujeitos  ou  os  corpos  de  suas  pinturas  não  são  escolhidos  de  forma  arbitrária,  são  normalmente  familiares, amigos,  amantes  ou  pessoas  que  ele  acha  interessante.  Suas  filhas  foram  representadas  em  várias  telas  como Naked  Girl  Laughing  (1963) e  Large  Interior  Paddington  (1968/69), assim como sua mãe, The  Painter’s  Mother  (1982).

Existe também um foco em corpos prósperos, mulheres grávidas ou gordas. Na busca de captar o real, o pintor se auto denominava um biólogo, isto é, um pintor do corpo humano cuja arte é autobiográfica.  Barrigas  flácidas,  marcas  de  rosto,  bolsa  embaixo  do  olhos,  rugas,  a  imperfeição  de  seus  modelos  não  passam desapercebidos  ao  seu  olhar,  ao  escrutínio  do  tempo  e  das posições  que  o  pintor  escolhia  para  seus  modelos  em suas telas.

Um grande exemplo disso é a tela Leigh  Under  the  Skylight  (1994). Nesta obra de tamanho monumental, Leigh Bowery, um artista performático e amigo do pintor é retratado nu através de um ângulo baixo e inconvencional. Expondo  um  homem  corpulento,  grande  e impressionante,  onde  suas  partes  íntimas  estao  nitidamente  expostas, Freud  retrata  um  nu  clássico  com  uma  grosseira  textura  que  é atingida  através  da  pincelada  e  da luz  que  o  artista projeta na tela.

Além disso, a posição de Leigh nos revela o processo desconfortável e a tarefa árdua que passou. Nesse  retrato,  assim  como  em  outros  do  período  mais  recente,  como  em Benefits  Supervisor  Sleeping  (1995),  um retrato  da  gerente  Sue  Tyller,  fica  evidente  a  capaciadade  do  pintor  de  transcrever  em  sua  tela  a  sensibilidade,  a emoção assim como a dissipação de tudo o que está envolvido na ocupação de um corpo abundante.

Assim como Nietzsche, Freud situa a essência da identidade humana no corpo e não na alma. Ele desnuda seus sujeitos, colocando em evidência a verdade humana nua e crua.

Freud  desnuda  o  homem  da  sua  armadura  social  e  de  seus artifícios  psicológicos  através  de  árduas  sessões  de pintura.  Seus  retratos  mais  recentes  incluem Queen  Elizabeth  II  (2000/01) e Kate  Moss,  the  subject  of  Naked  Portrait  (2002).

O  olhar  cruel  de  Freud  em  seus  retratos  solidifica  seu  estilo progressista,  transgressita  e  libertador  aos  cânones  de  beleza  que  caracterizam  as  imagens  do  corpo  humano  ao longo  da  história  assim  como  estabelece  seu  poder  de  emoção  e  projeção  da  realidade vista  através  dos  olhos  do pintor ao observador.

Dissimilitudes à parte, a inquietude do nu de Lucian Freud reavaliou o corpo humano da mesma profundidade que seu avô remapeou a mente. Porém, apesar da homogenização percebida no mundo contemporâneo, o ser humano permanece um mistério a ser desvendado e a nudez mais um elemento nessa descoberta.

Alessandra é ecritora e curadora independente de arte, trabalha e mora em Londres.

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