O Naufrágio

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O Naufrágio

 

por Thaís Graciotti

Necessitamos aceitar os naufrágios. Respirar a água, o sal. Promover uma morte

O vento agora está exatamente contra. A água que vem com o vento espirra no meu rosto. Me desperta

 

É puro movimento do arriscar-se, mas também do inacabamento. Do risco do percurso traçado, que é interrompido no meio do mar, desenhando a decepção de uma viagem, surge o desvio como problematizador e disparador de novos problemas.
A construção de um novo território é um trabalho árduo. Necessitamos aceitar os naufrágios. Respirar a água, o sal. Promover uma morte. Um suicídio do próprio corpo organizado, do organismo estratificado, da significação do vivido.
Naufrágio que o levará a um outro espaço, outra forma de vida.
Uma brecha? Uma ruptura? Um crack! Um zigue-zague. Movimento.
É necessário aprender com a experiência do naufrágio. Experiência que não se aprende de uma vez por todas. Volta-se a ela. Sangrar o organismo, as identidades, os rostos, e encontrar o sem-nome, o sem-sentido. Não quer o fundo, não o niilismo barato e fácil. Quer lançar um olhar à espreita.
São os caminhos que se abrem em uma experiência para buscar novas formas de dar conta dessa existência. Não são fugas da vida ou da existência, mas vias para nos posicionarmos de outras maneiras nos espaços ainda não ocupados, para resistirmos às linhas de estratificação que delimitam nossa experiência.
Não há nenhuma segurança disso. A prática com a textura intensiva, não há garantias. A aprendizagem se dá a cada vez. Naufragar para aprender. Aprender e naufragar, na leitura, na escrita, no pensar. Estar à espreita e praticar composições. Inclinar-se pelas alegres. Experimentar no mar, contra o muro. Aprender um naufrágio.
As nuvens me distraíram.
Preciso manter o curso tanto quanto possível.
Há a bússola para orientar. E há o leme que dirige o navio. E há os mapas.
O negócio é simples como o abc. Tudo matemático.
Preciso me concentrar.
Introduzo a rota no aparelho de navegação e viro a proa a nordeste. Faço um zigue-zague ao longo da linha traçada na carta. O vento agora está exatamente contra. A água que vem com o vento espirra no meu rosto. Me desperta.
Seguro a cana do leme com firmeza. Determinada. Grito por ajuda, ainda que não tenha ninguém para escutar. Grito para ouvir a mim mesma. Sou eu contra o mar. Eu contra mim mesma e contra tudo mais. Minha voz se dilui no oco do barco.
Não posso cair. Desço com cuidado. Não posso escorregar. Não estou presa por nenhum cabo. Paro de novo junto ao mastro. Mas a viagem não terminou. Ainda não. Talvez esteja só começando. Tropeço pelo barco e vou para fora, para o cockpit. Não sei o que devo fazer.
Parou de chover granizo. Uma névoa paira ao redor do veleiro, tenho medo de não conseguir respirar nesta bruma. Não enxergo mais nada.
O barco chocalha. Tenho que me segurar. Tenho que respirar.
O vento, a água, a nuvem, o ilimitado, o inabitado.
A escuridão palpitava sobre tudo isso, e de repente lá estava ela. Algo formidável e veloz, como o súbito estilhaçar de um frasco contendo toda a cólera do mundo. Parecia explodir por todos os lados da embarcação com uma prodigiosa força de choque, provocando um deslocamento de águas, como se um imenso dique tivesse sido rebentado pela ventania.
A lufada de ar que sinto no queixo vinda da tumultuosa tempestade, agora possui a força acumulada de uma avalanche. Fortes rajadas de água trazidas pelas ondas encobrem o barco de popa a proa, e instantaneamente, em meio à sua oscilação regular, começa a dar saltos e mergulhos como se tivesse enlouquecido de medo.
Preciso me concentrar. Sou eu contra o mar. Eu contra as rochas escarpa- das que avultam no horizonte em velocidade brutal.
Terra à vista: pavor. A grande batalha ainda está por vir. Só se passa ali perdido.
Os granitos são de uma estatura hedionda. Severa inospitalidade do abismo. É mar alto. A água é profunda. É um labirinto afogado.
O vento da tempestade, naqueles estrangulamentos entre duas rochas, sofre a mesma compressão e adquire a mesma malignidade. É a tempestade no estado de estrangúria. O sopro imenso fica imenso, mas faz-se agudo. É ao mesmo tempo maçã e dardo. Fura e esmaga. Imaginem o furacão fazendo-se vento coado.
Foi então que a crueldade do mar, a sua terrível inexorabilidade se me fez patente. A vida humana tornava-se ali ínfima – a simples vibração da matéria, inarticulada e sem alma. Agarrei-me à amurada de barlavento, perto do ovém, e esgazeei os olhos por sobre o estirão de ondas encristadas a perder-se nos bancos de nevoeiro.

* texto-fragmentos de literatura de viagens e naufrágios:
CONRAD, Joseph. Tufão. Porto Alegre: L&PM, 1997.
LONDON, Jack. O lobo do mar. São Paulo: Nacional, 1983.
HEIJMANS, Toine. No mar. Tradução: Mariângela Guimarães. São Paulo: Cosac Naify, 2015. HUGO, Victor. Os trabalhadores do mar. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
TOURNIER, Michel. Sexta-feira ou os limbos do Pacífico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. MÁRQUEZ, Gabriel García. Relatos de um náufrago. Rio de Janeiro: Record, 1999.
DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. Porto Alegre: LP&M, 1997.

 


Texto originalmente publicado na edição Travessia

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