Nós somos o amanhã

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Nós somos o amanhã

 

por Mãeana

Fica quase inexplicável para uma criança
de hoje a precariedade da minha infância.
Meu amor, eu vi os computadores nascerem

Para falar do tempo, quero falar um pouco da Xuxa, grande símbolo dos nossos anos oitenta, época pós-liberalismo-sexual-hippie porém megacapitalista e escravocrata, onde a rebarba da liberdade ideológica acabou servindo por mascarar muitos meios de

exploração, a começar pelo potente mundo das crianças.

Foi-se o tempo em que uma rainha descia de uma linda nave todos os dias e, no entanto, recebia cartas de amor escritas a mão via Correios. (Hoje, qualquer imbecil pode entregar-lhe virtualmente comentários sobre suas rugas.) Uma de suas canções, dirigida aos seus baixinhos, dizia assim: “nós somos o amanhã num disco voador, invadindo a Terra na tela do computador”, e nós cantávamos ansiosos por um passeio naquela nave. Foi bom ser criança nos anos 80. Sinto que já intuíamos os futuros ciborgues que nos tornaríamos através de telas infinitas e, assim, nos despedíamos diariamente e carinhosamente de todo aquele triste, cafona e aprisionado mundo do passado.

As mudanças de lá para cá podem nos dar um anúncio de que o futuro será praticamente uma alucinação. Se em 30 anos as coisas evoluíram tanto, como estaremos daqui mais 30? Estou particularmente ansiosa pelo fim da era do fio.

Quando o programa da minha TV a cores terminava, as plataformas de contato com aquele mundo mágico que me restavam eram a vitrola, os LPs, os livros e as revistas. Lembro de passar a tarde inteira com apenas um disco nas mãos, virando e revirando capa, contracapa e encarte. Hoje, fica meu filho quietinho num canto com seu iPad, navegando na tela do infinito. O YouTube é realmente infinito. Dom tem apenas 7 anos, e, quando nasceu, ainda não existia WhatsApp – veja só, aplicativo que hoje é protagonista da maioria dos contatos que fazemos no nosso dia a dia. Nossos hábitos estão mudando em uma velocidade estonteante. Fica quase inexplicável para uma criança de hoje a precariedade da minha infância. Meu amor, eu vi os computadores nascerem, me lembro da primeira impressora, do primeiro celular, do primeiro CD, das fotografias, dos gravadores, jesus! É muito sinistro. Depois veio DVD, MP3, etc., a perder de vista… Mecanismos cada vez mais livres da matéria e cheios de recursos.

Foi uma boa ideia quando alguém resolveu proibir propagandas direcionadas para as crianças na televisão, mas, antes disso, foi possível formar um império às custas do mercado infantil. Mercado que continua vivo, buscando novos caminhos. E eu, que, no caso, sou artista de filosofia trash-kistch-transcendental, até agradeço. (Qualquer manifestação humana é menos coerente com o sistema do que uma criança surtando no shopping – ou na festa de família –, sim, uma criança revoltada chorando e berrando é a manifestação mais coerente da humanidade hoje, e dá-lhe aplicativos calmantes.)

Só agradeço porque não se constrói império infantil sem arte. Que bom ver trapalhões ou vagabundas conquistando seus lugares no mercado.

Eu ouvia mais os foras que a Xuxa dava quando saía completamente do protocolo do que quando ela dizia “beba Toddynho” ou “compre minha sandalinha”. Se ela precisou se vender para poder incoerentemente e ingenuamente me fazer crer que o mundo pertence às crianças, aos artistas e aos loucos, tudo bem. E tudo bem principalmente porque assim foi, e é preciso perdoar. Vai da qualidade de consciência de cada um. Prova-se hoje cientificamente que a tecnologia das emoções vale mais do que qualquer outra. Uma criança que aprende a sonhar e confiar no próprio coração está pronta pra se salvar e salvar a todos nós.

Se o consumismo se tornou a doença extravagante do Ocidente, e se é isso que alimenta a evolução dos meios, tudo bem, também. É o que temos! Ou pelo menos o que tivemos até agora. Independentemente de qualquer avanço, precisaremos sempre ressignificar o passado. O que faremos a partir de tudo isso?

Vamos rezar para que as cores transmitidas nas telas digam muito mais do que os podres poderes manipuladores por trás delas. Que novas brechas se abram mais e mais. Vamos cuidar uns dos outros. Vamos, sim, rever nossos privilégios. E não vamos abrir mão das nossas potências, mesmo inseridos num sistema doente. Vamos dançar como bailarinas por sobre o capitalismo. Precisamos acreditar na inteligência dos nossos baixinhos – e orar por ela. Hoje, são cores infinitas que os invadem através dos YouTubers, por exemplo (nossa, que maravilhoso saber que o Felipe Neto está do nosso lado).

Odiadores odiarão. E ponto final.

Eu receio pelos influencers, mas não posso freá-los.

Minha mãe não gostava da Xuxa e, no entanto, eu intuía um feminismo louco e um segredo espiritual naquilo tudo. Segredos inimagináveis para um adulto frustrado. Sabe-se lá, tudo é possível.

Consigo ver com olhos de muita positividade o fato de uma mulher que acreditava trilhar o caminho para sua autonomia prestando serviços ao patriarcado (zero julgamentos sobre modelos ou prostitutas – sempre bom lembrar que elas podem estar sendo menos escravas do que uma secretária ou professora, ou dona de casa sustentada pelo marido etc.) e acabou conquistando rios e mares sendo a diva das crianças. Vegana, vê duendes, conversa com os animais e canta mensagens positivas. Isso é uma história linda. Que todos nós possamos nos vingar do machismo, do racismo e da exploração que nos cerca usando o avanço tecnológico e o lixo a favor do que há de melhor em nós.

 

Mãeana tem formação em dança na escola Angel Vianna. É cantora e artista visual.

 


Originalmente publicado na edição Infância
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