Maria Beraldo e sua terra de referência: Caetano Veloso

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Maria Beraldo
e sua terra de referência:
Caetano Veloso

 

por Maria Beraldo
Transa, de Caetano Veloso (1972)
foto: Daryan Dornelles

uma vez escrevi num caderno meu: “Caetano, é difícil te amar”.
tem também alguns outros escritos dedicados a ele nos meus cadernos, como cartas e letras de música inacabadas.
o fato é que Caetano, para mim, não é uma referência; é uma paixão exagerada.
eu tenho uma coisa ouvindo sua música que parece um prazer sináptico. sensação da compreensão intelectual através da emoção, e vice-versa. numa corda tensa.

clarinetista desde criança, compus minha primeira canção em 2014, durante um mergulho obcecado no seu disco Joia – já tinha ouvido o disco antes na infância, mas dessa vez eu fiquei 6 meses só conseguindo ouvir ele. a sensação que a canção “Joia” me dava de antropologia em dois versos encontrou o estruturalismo inconsciente que permeou minha infância sendo filha de antropólogo. experimentei cantar as músicas todas do álbum, e “Minha Mulher” me transformou, com muita importância, nesse momento que era o da minha saída do armário. eu roubei a canção dele em troca de todas as mulheres que a heteronormatividade me havia roubado durante todos os anos anteriores. antes da elaboração e tentativa (um pouco frustrada, um pouco sucesso) que hoje construímos, de desassociar o amor da posse, inclusive através da linguagem, cantar que uma mulher era minha me ensinou a sentir que, sim, uma mulher podia ser minha – eu tinha querido tanto tantas mulheres e tinha sido ensinada que nunca poderia tê-las. então coloquei na minha boca a “Minha Mulher”. uma a uma, devolvi tantas e todas as que dali tinham sido arrancadas, com a importância no fundo de me devolver a única mulher que é de fato minha: eu mesma. e Caetano um pouco me ensinou a roubar dele aquela música quando eu o ouvia roubando “Help” dos Beatles. que coisa tão linda. entrei num estado em que ouvir sua voz cantando uma coisa qualquer me emociona no profundo, e meu primeiro disco solo, Cavala (2018), com minhas composições, é pontuado por muitas referências, um pouco conversas, com a obra de Caetano: “Amor Verdade” é o nome de uma das minhas músicas mais emblemáticas (de saída do armário), e arranjei esse nome por causa de uma passagem de “Tem que ser você” onde ele usa “amor mentira” para se referir ao amor homossexual – li uma vez que seria um termo usado por um grupo indígena norte-americano. nessa mesma música, eu digo que “gosto de tê-los (os homens) ao alcance da boca” – mais uma citação de Caetano, em “Lindeza”. depois, tem essa minha primeira canção da vida, que se chama “Da Menor Importância”, evidentemente uma citação de “Da Maior Importância” (para mim, só no título, mas tem quem enxergue na canção também). gravei uma faixa de noise (“Rainha”) totalmente inspirada em “Ela Ela” (que está no Circuladô, produzida e tocada por Arto Lindsay), e minha música “Helena” é um pouco de “Boas Vindas” com “Irene”. isso e mais.

acho que Caetano me trouxe o meu encontro com a palavra no momento em que eu buscava a minha voz. ele tem uma inteligência sensível e uma sensibilidade muito inteligente. e, ao mesmo tempo, é muito terreno e humano, não parece um deus. e sei que assim como encosta em mim, encosta na geral.

 


Originalmente publicado na edição Terra
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