Mambucaba: onde mora o medo e a infância

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Mambucaba: onde mora o medo e a infância

 

por Vanessa Agrícola

De dia, eu tinha medo das ondas, a praia era bandeira vermelha de ponta a ponta, e os turistas morriam afogados. Meu pai falava que “tudo que é do mar, um dia ele vem buscar”

Eu vou tentar escrever uma história que eu tenho medo de contar, porque eu tenho medo de não conseguir, e mais medo ainda de conseguir. Medo de a Keyla ler. E a minha mãe. Só que Mambucaba é uma ficção. A vila dos trabalhadores da Usina Nuclear de Angra dos Reis nunca existiu. Nem o Paulo Felipe, nem a Carla Andreia. Serão todos nomes inventados. O local onde foi construída a Usina talvez seja uma coincidência, até porque só tem uma. Mas eu juro que Mambucaba é uma mentira. Até o nome não significa nada; uma abelha, ou uma planta. Eu prefiro acreditar que Mambucaba significa: passagem. A própria infância é um lugar de passagem, fica bonito assim.

Mas eu não sei se eu passei por Mambucaba ou se ainda estou lá, linda e com medo. Às vezes, eu sinto que vou morar para sempre na Rua Pará, 25, fugindo das co- rujas. Fugindo das ondas. Fugindo das caras que as pessoas faziam para mim e para a Keyla: “Que linda! A cara da mãe dela”. Fugindo de entender as coisas que as pessoas falavam da minha mãe e da Keyla. “Como é que está a sua mãe, ela tá bem? Fala que eu mandei um beijo, ela me conhece.” Fiquei com medo da maledicência. Medo da maldade.

Todos os trabalhadores da Usina Nuclear eram contratados por um determinado período de tempo, menos o meu pai, que se aposentou e continuou prestando serviço. O resto inteiro foi embora de Mambucaba. A minha mãe foi a primeira. Depois, a Andreia foi morar em Jacareí. Depois, a Adriana chegou lá em casa com um batom de moranguinho e uma cara triste. Eu não me acostumei. Acabou a obra de Angra I, foi uma leva; acabou a obra de Angra 2, foi outra. Fiquei com medo da falta. Medo de gostar das pessoas.

Muita gente morreu em Mambucaba. Meu pai foi o último. A primeira foi a Carla Andreia. Eu tinha sete ou oito anos, a Carla Andreia tinha onze ou doze. A gente ouvia a Carla Andreia gritar de dor, ficava um silêncio. A gente ouvia a Carla Andreia gritar de dor, ficava outro silêncio. Mambucaba parece muito aquele filme do Leonardo DiCaprio, A Praia. A história da Carla Andreia foi igualzinha à história do personagem que é mordido por um tubarão. Todos da última quadra ficavam ouvindo a Carla Andreia gritar de dor, e, no silêncio, esperávamos que ela morresse. Ou melhorasse, mas o câncer já tinha se espalhado. Fiquei com medo do câncer.

A mãe do Paulo Felipe também morreu de câncer, só que o Paulo Felipe morava lá na primeira quadra. Minha mãe não se conformava. Ela se cuidava tanto, não era justo. A mãe do Paulo Felipe foi do tipo que já comia comida macrobiótica nos anos oitenta. Durante muito tempo, minha mãe usou o exemplo da mãe do Paulo Felipe para justificar o cigarro. Fiquei com medo de a minha mãe morrer de câncer no pulmão.

Um dia, a Carla Andreia “descansou”. Os adultos de Mambucaba pularam a parte das estrelinhas e vieram com essa expressão mais honesta. Ainda sem prever as mortes da adolescência, todas de acidente de carro. A irmã mais velha da Ló, a Cris, a Tatá Bolão, depois a outra irmã da Ló e o irmão da Carla Andreia, o Paulo; os adultos só disseram que eles morreram. Ninguém de Mambucaba virou uma estrelinha: “Filha, aqui têm muitos espíritos”.

Meu pai engrossava o coro que Mambucaba tinha sido um cemitério de índios (para ajudar a entender as tragédias). Fiquei com pavor de andar em Mambucaba de noite. De dia, eu tinha medo das ondas, a praia era bandeira vermelha de ponta a ponta, e os turistas morriam afogados. Meu pai falava que, além da existência dos espíritos, “tudo que é do mar, um dia ele vem buscar”. Um dia o mar ia acabar engolindo Mambucaba.

 


Originalmente publicado na edição Infância
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