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LABIRINTO SEM MAPA

Por Débora Emm

Minha primeira vez foi com House of Cards e, mais recentemente, The Crown. Igual a tanta gente, gamei nas séries de TV do universo político, que trouxeram versões em variadas cidades pelo mundo. Entre as já citadas, situadas em Washington e Londres, peguei Marseille e Felizes Para Sempre?, em Brasília.

Pelo enredo, as histórias são antes sobre a humanidade do que sobre a política. Em outra série, Billions, ambientada no mercado financeiro contemporâneo, o personagem principal é essencialmente um Frank Underwood. E, do mesmo jeito que rola no plano político, salvo pelo abandono do uso do final feliz, ninguém há de dizer que o ambiente social mudou desde a antiguidade. Somos os mesmos desde Ben Hur.

Daí que o melhor de cada série é explorar a cultura local. As cidades são as pessoas, e o comportamento, aliado à vasta exploração dos cartões postais, fala muito sobre elas. Nos quatro endereços, de bondades a atrocidades, tudo é permitido. O que muda é o modo de fazer.

Começando pela última, The Crown acontece principalmente em Londres, entre castelos, palácios, carruagens, catedrais, tudo sob o peso da coroa. E, naturalmente, o elenco obedece à pressão dos séculos. Cada personagem tem consciência de que sua condição de vida está submetida à história. E se, por um lapso, alguém se esquece, o interlocutor argumenta usando o entorno. Com sua conservação, nem a figura mais progressista ousa bulir.

Chegando ao continente, em Marseille, o efêmero é o senhor da razão. Como se todos estivessem ali a passeio, sem compromisso com o antes e o depois, decisões são tomadas com o mesmo espírito de quem não se lembra exatamente do que fez ontem e sem medir as consequências para o amanhã, num frenesi generalizado. Tocam a vida como turistas que se adaptam ao humor meteorológico ou à sorte na roleta.

No novo mundo, as cidades-palco têm algo forte em comum: funcionam em torno da corte federal. Washington e Brasília são capitais nacionais, mas, ao contrário de Londres, Buenos Aires ou Tóquio, não são os destinos mais conhecidos dentro ou fora dos países, nem são os centros das demais atividades propulsoras – cultural, industrial, comercial, financeira. Com efeito, o sentimento da corte prevalece sobre o da sociedade.

Washington, segundo House of Cards, ainda que frívola, é solene. Vive em sintonia com seus monumentos, casarões históricos, ritos, protocolos e infinitos cemitérios de heróis. O palco principal das grandes decisões é o chamado Salão Oval, que esteticamente lembra a sala de chá de uma senhorinha viúva, com lareira, sofazinhos, almofadas com frufrus, bibelôs. É surpreendente que Kennedy e Clinton tenham aprontado tanto quanto dizem por ali. Oremos para que o Donald Trump também seja contagiado e se comporte.

Já Brasília é o delírio tropical em concreto armado. Seja por seu traçado sem esqui- nas, imaginado para ninguém parar e, menos ainda, criar raízes. Felizes Para Sempre? é a única das quatro séries em que o protagonismo é do lobista e da cortesã, não do governante.

Suprassumo da volúpia arquitetônica e centro do poder, o Palácio do Planalto é de uma sensualidade tamanha que, se por acaso vazar um vídeo Super8 de uma festinha de embalo em pleno terceiro andar, onde fica o gabinete presidencial, com Dragões da Independência fazendo cócegas em freiras carmelitas sob o olhar aguçado do general Castello Branco num sarongue, bebendo ponche num coturno, ninguém poderá surpreender-se.

Léo Coutinho é boêmio, romântico e blogueiro. leocoutinho@uol.com.br

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