Mariana Tassinari e sua herança visual

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Herança Visual

 

por Mariana Tassinari

Quantas pessoas não possuem um arquivo de imagens de família? Como fazer para ele se transformar em algo universal, que possa trazer algum significado para os outros?

Cresci rodeada por arte. Ela estava ali, parecia estar lá desde sempre. O lugar mais marcante era a casa dos meus avós paternos. Um dia, olhei para as pinturas na parede e comecei a entender o que eram. No outro, percebi cada objeto, cada escultura, sua arquitetura.

Com o arquivo de imagens dos meus avós em mãos, pude ver como cada uma dessas obras foi, aos poucos, habitando a casa. Fui descobrindo parte da história deles com arte através da evolução dessas imagens. Mais tarde, comecei a tirar minhas próprias fotografias da casa e, anos depois, registrei-a sendo esvaziada, cada pedaço de história afetiva migrando para um novo destino, para habitar uma nova história.

Quantas pessoas não possuem um arquivo de imagens de família? Como fazer para ele se transformar em algo universal, que possa trazer algum significado para os outros?

Comecei pela catalogação desse arquivo: slides e negativos dos meus avós, slides da minha tia-avó (que também era artista), slides de viagens do meu pai e de suas aulas de História da Arte e todos os negativos da minha mãe – que, além das fotos de família, também teve momentos experimentais com autorretratos e outras pesquisas. Somando ao meu arquivo de negativos, slides e fotografias digitais, me vi diante de um atlas infinito de imagens pessoais: histórias que não me pertenceram se fundem às minhas memórias num grande arquivo embaralhado.

Desde pequena, me fascinava desenhar plantas de arquitetura e inventar móveis. Parecia óbvio seguir para a Faculdade de Arquitetura. Precisei de dois anos e meio para entender que a arquitetura seria apenas mais uma fonte de referências, e não a matéria do meu trabalho. Decidi mudar para as Artes Plásticas e, desde o início, soube que me expressaria pela fotografia.

Foi por volta dos dezesseis anos que tive minha primeira aula de fotografia, com meu pai, assim que me entregou sua Canon K1000 manual, também usada por minha mãe em nossas viagens e eventos familiares. Comecei com registros de viagens, cenas cotidianas, fotos de amigos e família. Alguns cursos técnicos e outros experimentais depois. Aos poucos, meus registros foto- gráficos foram de um olhar passivo de uma turista para um olhar mais apurado, atento aos detalhes que me interessavam. (Passa- ram de um simples olhar de turista para um olhar interessado de artista, buscando formas para ideias futuras.)

Sempre quis ir além da fotografia, e as diversas técnicas artísticas experimentadas na faculdade me trouxeram liberdade para isso. Comecei com serigrafia, pintura e adesivos sobre foto. Em seguida, me apropriei de materiais como madeira, azulejo e acrílico para compor com a fotografia. Com a fotografia digital vieram as intervenções digitais: formas geométricas coloridas ocuparam parte da imagem, subtraindo detalhes, ocultando cenas. Explorando diferentes relações entre a imagem e essas matérias percebi que, além disso, também poderia unir uma imagem a outra.

Nada mais óbvio, então, do que revisitar meu grande arquivo embaralhado. A união de duas imagens produz um estranhamento inicial para, depois, proporcionar contemplação. O contexto individual impregnado nela faz com que cada um crie sua própria história. Isso é mágico na fotografia: poder viajar mentalmente apenas com o deslocamento do olhar, passeando pela imagem para capturar mais detalhes e pistas do lugar para onde estamos indo ou podemos ir.

A apropriação de imagens familiares carregadas de marcas temporais que emergem do arquivo para chegarem no presente de outra forma. As imagens antigas e analógicas encapsulam um tempo que não existe mais: o tempo histórico e um tempo em que era possível encontrar pausas para contemplar.

O desafio é criar uma imagem que faça o olho parar, relaxar e, depois, percorrê-la para tentar absorver um detalhe, uma forma, que fique gravada em nossa memória e possa ser levada conosco em nossa jornada.

 

Mariana Tassinari é artista e vem perdendo noites de sono tentando organizar seu arquivo de mais de 6.000 imagens de família | @maritassi

Originalmente publicado na edição Terra
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