Guga Szabzon: Dilema

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Dilema

 

por Guga Szabzon

Imagine você, um espaço vazio.
Imagine que um caminhão carregue suas coisas e coloque tudo ali no meio.
Tudo está embalado com plástico bolha.

Imagine você sozinha com todas as suas coisas embaladas.
Você fecha os olhos e pensa tudo que poderia fazer com essas coisas.
Você desembala e arrasta os móveis de lugar.
Você olha para a janela e vê onde bate mais sol, e se imagina desenhando em uma mesa branca com todos os seus lápis na sua frente.

Na sua direita tem outra janela que dá para a cozinha do vizinho que prepara pastéis para a feira, e você imagina que vai precisar colocar uma cortina ali.

Imagine onde é o melhor lugar para guardar os tecidos.
Longe do sol. Visível aos olhos.
Imagine todos esses tecidos arrumados por cor, e quantos trabalhos ainda não foram feitos.

Imagine tudo que poderia estar pendurado nas paredes.
Elas acabaram de ser pintadas, estão brancas, lisas.
Imagine que ninguém mais possa entrar neste espaço.
Que você possa ir todos os dias.
Que você possa fazer o que quiser lá dentro. Ninguém está vendo.
Imagine arame, ilhós, tinta, livro, alicate, borracha.

Aí você vai para casa. Dorme, sonha, anota.

Imagine voltar àquele espaço.
Sentar de frente para a janela, pegar os lápis, abrir o seu caderno sobre a mesa branca.
Escrever qualquer coisa sobre seu dia, anotar qual- quer coisa que esteja sentindo, qualquer imagem que tenha visto no caminho.

Imagine agora, você olhando para sua estante de tecidos arrumada por cor.

Você escolhe um tecido.
Você escolhe uma palavra.
Imagine que você possa fazer alguma coisa com isso.
Que cada escolha é um ganho e muitas perdas ao mesmo tempo.

Imagine que aquilo agora é seu.

Imagine que no dia seguinte você chegue neste espaço e recomece tudo outra vez.
Imagine que não te venha nada na cabeça.
Você pega a vassoura, limpa os vidros, afia as tesouras.
Imagine que essa tesoura tenha ficado tão afiada que dê vontade de cortar alguma coisa.
Imagine você, com um papel azul na mão e uma tesoura afiada na outra.
Devagar você vai cortando e escolhendo um caminho a percorrer.

Imagine que essa tesoura é um barco.
Imagine quantos destinos diferentes poderiam ter sido feitos. Quantos lugares deixei de conhecer.
Imagine agora que, em vez de usar a tesoura, você se sente na frente de uma máquina de costura.

Você escolhe uma cor de linha.

Você puxa a bobina por uma pequena roldana que desce, passa por um buraquinho, desce de novo e passa pela agulha.
Imagine essa linha se prendendo sozinha em uma base felpuda e quente.
Imagine caminhar sobre as fronteiras de um mapa. Imagine navegar.

Se imagine no universo.

Imagine o seguinte: Você segue em frente.
Cai em um buraco.
Levanta
Uma bifurcação
Você escolhe a esquerda, volta, e aquele caminho não existe mais.
Imagine que algo exploda bem na sua frente, você vai em outra direção, um lugar mais calmo, mais leve.
Imagine ficar parada.

Imagine que este lugar não é mais um lugar; é um símbolo.

Eu ainda não pendurei uma cortina na janela da direita. Vejo os pastéis serem feitos todos os dias, tenho fome.

 


Originalmente publicado na edição Terra
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