logo-amarello

GUAIBIMPARÁ, DEPOIS CATARINA de Jorge Caldeira

Tupinambá, filha do chefe Taparica, criada e educada segundo essa condição em seu povo.

Cada uma das palavras da frase acima ganha sentido próprio quando analisada por padrões antropológicos — uma necessidade imperiosa para falar de quem não conhece a escrita.

“Tupinambá” indica o pertencimento a um grande grupo dos povos Tupi-Guarani, com seus traços gerais de organização.
“Filha”, nessa cultura comum, quer dizer algo bem diferente daquilo que significa no Ocidente. Para os Tupi-Guarani há somente um genitor, o pai; a mãe é considerada apenas um veículo de geração da vida.
Sendo assim, “família” também tem outro significado. Apenas um exemplo revela o tamanho da diferença: filhos de uma irmã do pai não são sequer considerados parentes — e com eles uma filha mulher desse pai pode casar; já os filhos de um irmão dele são considerados irmãos dessa filha mulher — e o casamento, incestuoso. No modo ocidental de conceber família, seriam ambos primos.
“Chefe” também significa coisa própria: um cargo eletivo. Exceto no caso de guerra, ninguém lhe deve obediência. Sua grande função é unir pessoas conversando, seja dentro do grupo na aldeia, seja com os grupos ao redor.
“Criada” indica crescer numa casa com suas regras. Na hora de casar, o homem dos grupos Tupi-Guarani vai morar no local de residência da mulher. Assim as pessoas fixas da casa são as mulheres. Na casa da menina Guaibimpará vivem, de forma permanente, sua avó materna, sua mãe, suas irmãs e suas eventuais sobrinhas — toda a linhagem feminina de parentes. Os homens do grupo são afins sem relação de sangue obrigatória entre si.
“Educada”, para uma mulher Tupi-Guarani, significa aprender, entre outras coisas, a saber viver com um marido vindo de fora, que possa enriquecer a vida do grupo de mulheres permanentes e homens passageiros. E “casamento” significa um ato de união consensual e temporária, que pode ser desfeito a qualquer momento.
A “condição” de filha de chefe impõe um aprendizado diplomático extra: ela, preferencialmente, é oferecida aos homens que, a julgamento do pai, permitam formar alianças para fortalecer o grupo. Em seu caso, o marido aceito é Diogo Álvares Correia, náufrago acolhido por volta da segunda década do século XVI.
O marido enriquece o grupo a partir de negócios com europeus. A troca mais comum é de produtos de ferro (os nativos desconheciam a metalurgia, e assim tais objetos tinham muito valor) por pau-brasil (abundante na terra, inexistente na Europa e por isso com alto valor para navegantes).
A escala dos negócios logo se torna maior que a capacidade de uma única aldeia suprir a demanda. O método de ampliação é o usual para os Tupi-Guarani: fazer aliança com aldeias próximas — sagrada por um casamento no qual uma filha do chefe aliado, como exceção da regra, é mandada para ser segunda mulher do fornecedor de bens. A poligamia não só é aceita como bem-vista nesse caso. Cabe à filha do chefe que faz novas alianças organizar diplomaticamente o convívio das novas mulheres de seu marido.
Os negócios progridem até o ponto em que Diogo Álvares Correia pode levar suas mulheres para conhecer a França, no navio comandado por Jacques Cartier (futuro descobridor do Canadá). Em Rouen, no dia 30 de julho de 1528, a mulher do comandante, Catherine des Granches, que é nobre, torna-se madrinha de batismo da visitante, registrada na certidão como Catarina do Brasil. Na volta da viagem ela adota uma nova denominação: Catarina Paraguaçu, esposa do marido apelidado Caramuru.
Catarina não conhece apenas uma nova cultura na Europa — tão distante de seu povo de origem como o Brasil dos europeus. Aprende a manejar os conceitos de família e negócios dos ocidentais.

Casa com Caramuru segundo o rito católico. Ganha os atributos culturais que os europeus davam ao ato: única mulher oficial, herdeira. Mas não esquece o sentido do casamento entre seus parentes: as alianças e negócios com eles continuam — o que sugere um marido agora com concubinas — e mostram sua força num momento delicado.
Em 1536, aparece na terra o português Francisco Pereira Coutinho com uma carta do rei de Portugal que dizia ser ele o senhor de tudo que por ali houvesse. Reza a lenda que Taparica teria comandado a expulsão dele da terra. Mas tal lenda, que inocenta o casal no episódio, pode ter sido criada mais tarde.
Em 1548, o próprio rei D. João III mostra ter entendido quem mandava por ali — e se alia: pede a Caramuru apoio para instalar o governo-geral em sua área de domínio. O governador Tomé de Sousa vem instruído a fazer o possível pelo casal capaz de garantir o plano — e logo nobilita os filhos homens, tornando-os importantes pela lógica ocidental.
Mas o casal age também com outra lógica. Presta atenção nos casamentos das filhas mulheres, aquelas que trazem homens de fora e promovem a ampliação da casa, segundo o conceito Tupi. Todas se unem a maridos indicados pelo governador, o chefe representante de uma nova aliança.
Caramuru morre em 1557. Catarina herda dinheiro e poderes. Mulher rica e respeitada, sua capacidade de controlar a sociedade ao redor com a diplomacia aprendida de seu povo passa pelos negócios de seus genros e chega até a Igreja, que ajuda com o emprego de seu patrimônio no financiamento de obras sociais.
Morre em 1583 como figura central da já afluente sociedade baiana. Mas o grande empreendimento dessa mulher Tupinambá para chegar até esse lugar proeminente é atribuído por historiadores a méritos apenas ocidentais. Até que os modos de ser Tupinambá fossem estudados, apagou-se da história o papel essencial das mulheres nativas na construção de uma sociedade nova.

JORGE CALDEIRA é escritor e editor convidado dessa edição. Dentre muitos livros que escreveu está “101 Brasileiros que fizeram história”, Editora Sextante, do qual este texto é parte.

Compartilhe