Conversa Polivox: Josyara por Pérola Mathias em SP

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Conversa Polivox:
Josyara 

 

por Pérola Mathias em São Paulo

Hoje eu estou num processo de querer mais parcerias, mas a solidão, sem dúvida, é que me acalenta para as coisas se assentarem melhor

A arte é um mecanismo de informação e de comunicação incrível, porque ela pega nesse afeto, nessa memória de casa, de alguma coisa, então emociona as pessoas

Em 2018, Josyara lançou o disco Mansa Fúria. Como fio condutor de sua música, a poesia e o violão tomam a frente do disco, que vai se construindo em camadas, texturas e sobreposições orgânicas (sobretudo pelo violão quase virtuose de Josy), somadas a elementos eletrônicos. A baiana, nascida em Juazeiro, morou por muitos anos em Salvador e aportou há mais ou menos três em São Paulo. De lá para cá, acumulou muita estrada carregando o violão nas costas. Em Mansa Fúria, ela canta diversos elementos que compõem seu universo: as vivências, o amor, gostos e aromas típicos de frutas e temperos, a religiosidade, a família, a solidão.

Ainda em 2014, fui à Casa da Mãe, em Salvador, numa terça- feira, enquanto estava de passagem pela cidade. além dos músicos cativos que fazem a noite no palco aberto do espaço, como Armandinho, Morotó, Gil Vicente, entre outras figuras mais do que conhecidas dos soteropolitanos, surgia, na frente de todos esses barbados, Josyara, uma menina esbanjando simpatia com seu violão, voz e repertório, que me prenderam do começo ao fim da apresentação.

Na terça-feira seguinte, ainda na cidade, voltei à Casa da Mãe e rolou o repeteco da noite. Josyara estava lá novamente. Sagaz, ela lembrou logo do meu rosto. eu, encantada, tinha gravado na cabeça seu repertório, que começava com Severina noite, de Lula Queiroga, passeava por clássicos do cancioneiro nordestino, mas também pelas canções da própria Josy, como O que não posso explicar, além de outras que foram gravadas em seu primeiro disco Uni Versos, de 2012, que a plateia sabia cantar em coro.

Em 2018, quatro anos após as noites na Casa da Mãe, depois de ver Josyara indo e vindo por São Paulo e Salvador, entre muitas apresentações e projetos dos quais participou – como um show com releituras das músicas de Belchior com Giovani Cidreira, que intitularam Coração Selvagem –, veio Mansa Fúria, que pode significar muitas coisas pela contradição explícita no título. Para mim, sua definição é a de música de acalentar corações devastados para seguir em frente.

Como tem sido estar em São Paulo como uma mulher negra, artista, nordestina e lésbica?

Estar em São Paulo é, para mim, aprender a me olhar e me identificar como essa artista, negra, lésbica, que tem todas essas opressões mais visíveis, porque a gente sai de casa, né? Sai do conforto, já começa trabalhando com a saudade, e esse autoentendimento fica muito mais nítido aqui, longe do que a gente entende como um aconchego. Do mesmo modo, a gente vai criando um outro aconchego. e São Paulo é um grande passo em como eu me vejo e de como as coisas são: das pessoas olhando meu cabelo e falando dele, minha própria mãe, minha própria avó, que são brancas. então, tipo, é muito forte isso, não tem como dizer que não existe esse racismo. Por isso que é importante afirmar e mostrar sempre esteticamente a nossa ancestralidade e tudo mais, falar desse assunto. e São Paulo me proporciona esse tipo de visão e de conversa. Como aqui tem muita gente de várias outras cidades, acabo tendo diálogo com diversas pessoas, sobre diversas coisas.

E como você vê sua trajetória musical, desde quando começou em Juazeiro e no interior da Bahia, até ir para Salvador, fazendo ali algumas noites, como as da Casa da Mãe, inserindo-se na cena, passando pelo disco Uni Versos, que você gravou com o apoio da Petrobrás, até o Mansa Fúria?

O que mudou, que para mim é muito forte, é a questão do amadurecimento mesmo. Eu sempre soube que o meu desejo pela música é o que me toma, que eu quero isso, mas ainda ficava muito embaçado em termos de certas posições, posicionamentos comigo e com a minha arte. Eu era muito influenciada por caras que estavam ali perto de mim, amigos músicos ou produtores, como o produtor desse primeiro disco mesmo, que vetou a minha ideia de só usar percussão e colocou bateria, porque na visão dele tinha que ter. Hoje, nenhum produtor fala isso se eu não concordar com ele. Então teve esse amadurecimento do que eu quero e da segurança com meu instrumento; eu tenho consciência de que é ele que rege toda essa construção musical. Sabendo disso, eu estudo melhor, eu conduzo o meu jeito para traduzir melhor a canção. Teve essa coisa progressiva mesmo, que eu espero que sempre floresça: as ideias. É o que eu desejo, na verdade, mas as coisas vão vir, né, tem surpresas mil, mas é isso.

E como você se inspira? O que dá material para sua poesia, para sua música?

É a vivência mesmo. É viver. É conhecer as pessoas, ir a algum show que me toque em algum lugar, qualquer que seja: de posição ali, do que está rolando, ou de completa identificação. Acho que é isso, os encontros, mas principalmente a solidão – que é o lugar que mais me faz ter ideias organizadas. Hoje eu estou num processo de querer mais parcerias, mas a solidão, sem dúvida, é que me acalenta para as coisas se assentarem melhor. É basicamente isso, eu gosto de falar do que eu sinto, com a verdade daquele agora, que, se depois vai mudar, eu já não sei, mas aquilo ali é uma verdade para mim, e eu tento expressar da melhor maneira que eu encontrar na hora.

Fala um pouco do que você acha da relação entre música e política, da situação que a gente vive agora e do seu lugar, de ter se deslocado da sua situação de conforto para ser uma artista. 

A arte é um mecanismo de informação e de comunicação incrível, porque ela pega nesse afeto, nessa memória de casa, de alguma coisa, então emociona as pessoas. Quando você emociona uma multidão com sua mensagem, com o que você acredita, que você acha importante ser dito, ou um tipo de acontecimento político – que é o nosso caso agora, que estamos sendo representados por pessoas completamente despreparadas para governar e preconceituosas e odiosas. então é para informar e despertar sentimentos. Eu acho que a música é muito importante, e a gente tem essa responsabilidade de estar sempre se atualizando, entendendo o contexto da realidade em que a gente vive, para aprender e se informar também. Porque eu estou aqui, é a minha vivência, nesse lugar, nessa bolha, mas, se eu falo algo e isso ultrapassa a bolha, esse retorno vai me fazer refletir em alguma situação também. É importante a gene estar no chão também, andando, consistente, tentando enxergar as coisas e as pessoas.

Quais são seus próximos passos e projetos agora?

Mansa Fúria ainda é recente. Ele ainda vai fazer 1 ano, e a ideia é maturar e aperfeiçoar ele em shows. a gente vai montando o show; em cada um, a gente coloca uma música a mais, arranja ali de um jeitinho, de acordo com o show. Clipes também, a gente está nessa luta de parceiros para poder lançar os clipes de cada canção. Já lançamos dois clipes conjuntos e queremos gravar alguns outros. Mas a criação não para, né? Eu estou me dedicando a criar pensando em um próximo trabalho, mas, querendo ou não, ele vai trazer um tanto de Mansa Fúria também, porque é esse aperfeiçoamento da identidade de um som. Quero uma coisa mais consistente, e esse disco com certeza vai me influenciar para criar as coisas novas.

 


Texto originalmente publicado na edição Travessia

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