Want create site? Find Free WordPress Themes and plugins.

Casa Nova apresenta Gilvan Barreto + Michael Wesely

Espaço nos Jardins apresenta duas individuais que discutem a situação política no Brasil. O alemão Michael Wesely traz suas criações em longuíssima exposição enquanto o pernambucano Gilvan Barreto reflete sobre a violência escondida em nossos cartões postais.

Compartilhe

Vivemos um período de incríveis transformações no Brasil. Nada mais é estável ou seguro. Neste momento de mudanças extremas, a criação artística costuma ser um dos grandes polos de contestação, de escape, de transformação. A Casa Nova traz duas individuais que se debruçam sobre este período de transformação, com dois pontos de vista distintos: Expedição, de Michael Wesely, e Postcards From Brazil, de Gilvan Barreto. Um estrangeiro e um brasileiro refletindo sobre a realidade do nosso país.

Tivemos a chance de conversar com Gilvan por email sobre a criação desta exposição e o papel da arte neste momento de mudança. Você pode ler abaixo a entrevista na íntegra:

AMARELLO: Há um contraste muito grande entre a beleza das imagens dos postais e a violência escondida nelas. Como se deu esse processo criativo? O que te instigou nessa abordagem?

Gilvan: Faz alguns anos que ando pesquisando sobre violência no Brasil. Uma da linhas que mais me interessa nesta pesquisa é a relação entre a Natureza e a violência institucional. Achava que a natureza tinha sido muito mais que apenas o cenário para os crimes da ditadura. Quando saiu o relatório da CNV, fiz um cruzamento entre alguns dos crimes mais emblemáticos do regime buscando suas relações com a natureza.  O resultado foi impressionante. Estava assim desenhado uma espécie de atlas dos crimes da ditadura. Rios, mangues, matas, florestas e mares foram sepulcro de centenas vítimas da violência institucional. São o avesso de alguns dos cartões postais que a Embratur divulgava. Criado pela ditadura, nos anos 1960, o órgão nasceu com a missão de melhorar a imagem de um Brasil terrorista e assassino.
No estilo “nossos bosques têm mais vida”, vou relendo alguns símbolos e orgulhos nacionais. No trabalho ainda mostro como a fauna serviu de inspiração para torturas, os nomes de animais viraram codinomes dos torturadores, e até batizaram centros de tortura. Como é o caso do centro clandestino de torturas que havia na base aérea do Galeão, que era chamado pelos militares de “Paraíso”.
“Postcards..” trata de uma das raízes de nossa violência. O trabalho pode parecer antigo mas infelizmente não é. Uma “faísca” determinante para o projeto foi o caso do Amarildo, no Rio de Janeiro. O pedreiro foi levado a uma dependência policial e torturado até a morte. Seu corpo tem destino incerto na cidade maravilhosa. Foi mais um que entrou na lista dos desaparecimentos (forçados). Um dos tantos métodos herdados da ditadura e que ainda são utilizados hoje em dia.

A: Como você acredita que a sua mostra e a de Michael Wesely se complementam?

G: Acredito que temos abordagens e objetivos bem distintos. Mas há este elo feito pela natureza, pela reflexão sobre o tempo e paisagens. Talvez os trabalhos possam ser vistos como complementares ou até opostos. Um é estrangeiro mergulhando fundo nos registros de uma paisagem brasileira onde as pessoas estão borradas, são vultos de populares. Revela as transformações da paisagem em camadas de tempo. Um tempo que parece andar para frente. No Postcards from Brazil fica evidenciado o oposto, décadas se passaram e nada mudou. As heranças da ditadura continuam vivas e operantes. Os culpados nunca foram punidos, pouco foi esclarecido. Em certo grau, podemos acreditar que estamos presos a um ciclo que teima em se repetir. Por isso, no meu caso, existe a necessidade de analisar estes fragmentos da História com certo distanciamento. Se no trabalho de Wesely as pessoas são representadas como vultos ou rastros, no meu trabalho  as pessoas têm nome, sobrenome e biografia conhecida, mas são lacunas, cicatrizes da paisagem. Somos autores trabalhando em camadas e tempos diferentes de uma mesma paisagem. Além disso, usamos estratégias distintas para representar as ausências. Foi uma boa sacada de Adriano Casanova (Galeria Casa Nova) expor o nosso trabalho junto.

A: Como você acredita que a produção artística pode transformar a realidade do Brasil? Devemos tentar produzir trabalhos cada vez mais políticos?

G: Vivemos um momento extremo. Parece que foram abertas as portas para tempos de selvageria, intolerância e ignorância. Impossível não reagir a tudo isso. Mas cada um reage da sua maneira. Não diria que precisamos ter trabalhos mais políticos. Mas precisamos politizar os discursos e ações. Também não sei se a produção artística pode de fato transformar nossa realidade. Mas no mínimo são vozes diferentes de um pensamento crítico tão perseguido atualmente. Por mais desigual que esta peleja possa parecer, essas outras versões precisam existir. Mesmo que a gente fale para audiências menores e com conteúdo mais reflexivo que afirmativo. É preciso dar vazão às nossas inquietações. Se as pessoas vão captar ou concordar, eu não sei e nem guiarei meu discurso em busca de adesão. A transformação começa em mim. Continuo acreditando nas tais micro revoluções íntimas.

Compartilhe
Did you find apk for android? You can find new Free Android Games and apps.