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BÁRBARO E NOSSO

Dedicado a
 Oswald de Andrade, Rosa Magalhães, Eucanaã Ferraz,
 e principalmente
 ao argonauta Caetano Veloso.

de Guilherme Abud
Foto Vânia Toledo

 

 

“Quem descobriu o Brasil, foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval”, enredo que coroou a Imperatriz Leopoldinense, campeã do desfile das escolas de samba de 2000, hoje
se desdobra e redobra na folia, que, dois meses antes de Cabral, já era orientada por Caetano Veloso. “O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso” – assim disse Oswald de Andrade! ANDRADE, Oswald de disse “Só a Antropofagia nos une. Nunca fomos catequizados. Fizemos foi o Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses…

…Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.” Caetano tinha orientado o carnaval e organizado o movimento! Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Dona Canô é a prova da alegria dos nove no matriarcado de Panamérica.

A Cruzada Cafona caminha à Terra Santa contra a Intelligentsia. Há Cruzada. Pecado é o julgamento da nossa cafonice. Da sua cafonice. Você é cafona. Caetano nunca teve preconceito em pecar contra os bons costumes de uma classe que se satisfazia em tocar apenas um acorde. Só. E o sol, dilacerando contra o vento, nos apresentou a síntese a queimar os nossos pés, da grande geleia geral que vinha a descer o morro de Mangueira, em verde e rosa nos parangolés tropicalistas, ao som daquele surdo-mór.

És matéria em obra do famoso oriki de Exu: “Ele matou um pássaro ontem, com uma pedra que somente hoje atirou”. Caetano surge a atirar pedras hoje para atingir as lógicas canônicas de ontem, e a cada novo passo, na sua obra, atira uma pedra rumo ao seu próprio espelho, que se espedaça, e retalha um caleidoscópio fundamentalmente quebrado. Requebrado. É Mulata ta ta, é Irace- ma ma ma. É a obra de Alencar, que sedimenta Oswald, a construir o vale de Joias, acalentando o ébrio Celestino em seu Coração Materno.

“…o contrassenso deve ser o mandamento de quem precisa disfarçar o mal-estar após mostrá-lo sem pudor…”, já dizia Eucanaã Ferraz em seu poema “1”, que está incrustado na orelha do livro Escuta. Caetano alegoriza o mal-estar para escancarar o contras- senso. Alegoria do Brasil real. Brega em sua essência. Messiânico. Esmiúça uma produção despida de preconceitos, vaga na sua fundamentação musical.

A inebriar a multidão, Angela Maria, Nora Ney e Nelson Gonçalves cantarolavam aquela canção de Celestino, sob o atento violão de Caymmi. Aquela canção de amor embalava o beijo de Marilyn Monroe no “eu” tridimensional onipresente de José Agrippino de Paula, transformando Santo Amaro em uma nova Panamérica, a Panamérica alegórica que agora pertencia a Caetano Veloso. Santo Amaro, o santo, viu a multidão, em procissão, por lá adentrar. Clarice Lispector de mãos dadas a João Gilberto com sua bossa, Bob Nelson vestido de caubói, e Elvis Presley a misturar seu chiclete na banana de Jackson do Pandeiro. Herivelto, Ary e Pixinguinha sambavam ao som da bateria de mestre André.

O transe entrou em Transe: um país e sua alegoria. Uma alegoria que ganhou vida e, como nos filmes mais tenebrosos, passou a assombrar seus entes alegorizados. Como recurso, sua Terra torna-se estrangeira. A Ter
ra Transa em London. Em London, o experimentalismo existencialista existe. É a guitarra. É a vanguarda. É a sintaxe sintética misturada no caldeirão nostálgico de uma triste Bahia. Torna-se assim Demiurgo nas mãos do bruxo Mautner.

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, araçá azul fez ninho e avoou. E os discos viraram voadores a apontar contra os chapadões dos nossos narizes. Viva Palhoça! Viva a vaia viva da desilusão daqueles que não entenderam nada. Nada! Qualquer coisa não significa nada, ou significa, a marca dada por Torquato, Capinan, Macalé, Salomão e Leminski, em outras poucas palavras. De repente, na ver- dura eu vi a cor mais verde, a cor mais alegre e mais triste de acordes do purgatório que me levaram ao louvor a Jorge, aquele da Capadócia.

Seu caleidoscópio é a múltipla coloração carnavalesca dos afetos, afinal são muitos carnavais… O Tropicalista apedreja Deus e o Diabo, abraça a Divina Comédia, e se banha em chuva, suor e cerveja. Araçá voou, e logo João de Barro pousou para ver a filha da sua Chiquita Bacana entrar para “Women’s Liberation Front”. Desde que o samba é samba, os clássicos despertam – com despertadores de pífanos e pandeiros – como se nascessem feitos Macunaíma.

Circulado, despista as tréplicas narrativas formais. Ora, cinema é falado! Para Caetano Veloso, a pedra despedaça a narrativa cinematográfica e abraça a poesia, a fala e a filosofia. É a película de ensaios dos ensaios que reverberam o avesso do avesso do avesso. Seus personagens são ícones que falam! Que verborragizam experimentalismos. Circulador, circulando, despista o Genipapo Absoluto estrangeiro onde ardia em fogueiras o vapor barato da nova ordem mundial. Caetano foi encontrado dentro da nova ordem antropofágica, de tanga e cocar, atirando pedras na ruína daquela escola em construção. É tropicália ainda viva, é a terceira margem do rio. Pensaram que ele tivesse voltado americanizado, mas jamais se esqueceu da Bahia. Caetano é a onisciência do beijo de despedida, no cais, de Caymmi a Carmen Miranda.

No fio da navalha, valsa o ano de 2000, e apresenta sua Verdade!
 Categorizando tua ternura sedenta, em redes de balanço e em mosaicos de palha. Meditou com Odara e Tieta a capacidade de estar só. E o sol agora é ocultado pelo eclipse total. A vida nunca passou de um grão.

Mas é na virada do século, já perdido no espaço de 2001, que Caetano apresenta ao vivo suas Noites do Norte. É a confluência musical que abraça a qualidade de não ter lógica formal. É o dom de iludir o espectador. Como Garrincha confundia seu marcador. De flertar com o caso para trançar o acaso. Zumbi e Haiti são lutas que rebarbam no último romântico que voa com Araçá Azul. Ele exalta a malícia de toda a mulher, de toda tigresa, sob o funk encenado num tapinha só. Só um tapinha. Só Eu e a Brisa à luz de Cajuína. É a desorganização de caminhos paralelos cruzados. A encruzilhada é sua passagem fundamental.

E, assim, a liberdade passa a ser compreendida na alegorização do país que nunca saiu de sua transe. Você não vai reconhecer Caetano quando ele passar por você. “Cê” ele passar, you don’t know me. Eu sou samba, desde que o samba virou rock. Quando me ouvir cantar, passará por Zii e Ziê, e verá que tudo em volta está deserto assim como dois e dois são cinco.

Sinótica. Diacrônica. É a incompatibilidade de Gênios.
 Gênio! 
Deixo-te meu Abraçaço enquanto me deito na fazenda de areais. Teu coração vagabundo ainda teima ser um Coliseu transcendental. Do alto do teu estandarte, do bloco que reinaugura a cada carnaval, cintilam novas Lindonésias. O monumento segue hiper- moderno, mas continuam a dizer nada do modelo do seu terno.

 

GUILHERME ABUD é cineasta, escritor, realizador e pesquisador cultural, e escreveu este artigo para a edição Delírio Tropical, AMARELLO.

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