Amarello Visita: Lauro Barcellos

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Amarello Visita: Lauro Barcellos

Em direção às águas, fomos até Rio Grande conhecer o oceanógrafo Lauro Barcellos e os museus marítimos da FURG

por Willian Silveira
fotos Camilo Santa Helena

Rio Grande é essencialmente um lugar marítimo, onde a maritimidade é respirável em qualquer lugar que se vá. Você dobra uma rua e, no fim dela, tem um barco atracado no cais

Eu tenho muita esperança na educação, porque sou um produto dela

Quando estamos no mar e passamos por uma tempestade, percebemos que a Terra é velha, furiosa, poderosa. Essa vaga pretensão de que nós estamos no controle, é pura ilusão

O impacto do azul. Chegar em Rio Grande, cidade localizada em uma península no extremo sul do rio Grande do Sul, é deparar-se com uma porta que nos é aberta abruptamente. Seja pelo céu, que surge em chocante protagonismo diante das casas baixas de origem portuguesa, seja pelas águas, que habitam a cidade. Não por acaso, portanto, Lauro Barcellos encantou-se com o local aos 17 anos. Da chegada para estudar oceanografia até agora, a cidade que se confunde com as águas passou a confundir-se também com a presença do oceanógrafo, museólogo e diretor do Complexo de Museus da FURG. Na conversa que tivemos, Lauro Barcellos nos ajuda a pensar o Brasil, a cultura náutica, a importância da educação e o papel das novas gerações.

A História nos prova que o acesso à água é um privilégio. Na África, o rio Nilo cria tensão entre Egito, Sudão e Etiópia. No oriente Médio, o Jordão é um ponto não pacífico entre Israel, Jordânia e Síria. aqui do lado, Chile e Bolívia buscam um acordo pelo acesso ao Pacífico há mais de um século. Com pelo menos 8 mil quilômetros de litoral, como você vê a relação do Brasil com a história da navegação e o mundo náutico?

Nós precisamos melhorar muito essa relação. Até porque nós não cuidamos devidamente da região costeira. É ali onde estão as maiores concentrações humanas. A maior parte da população vive em torno da costa, ocupando as regiões costeiras que são tão sensíveis. É nessas regiões que temos a grande produção de riquezas naturais, principalmente porque nessas áreas a vida marinha se aproxima para se reproduzir e crescer. E também temos nessa região o comércio; toda a economia que se estabelece ao longo da costa brasileira pelos portos, pelas mercadorias, pelas importações e exportações. Elas ocupam o mesmo espaço de onde também retiramos as riquezas naturais para a sobrevivência de muitas comunidades. Então nós temos interesses conflitivos em uma área comum e sensível. Para que isso aconteça de forma harmonizada, respeitosa, e que as futuras gerações possam sobreviver em uma área importante como essa, é preciso que tenhamos conhecimento e boa fiscalização. A quantidade de plástico e dejetos que lançamos ao longo do litoral brasileiro é um absurdo. Temos feito inúmeras campanhas e esforços para que o impacto seja reduzido, mas estamos longe de uma condição ideal.

Estamos em rio Grande, uma cidade de 200 mil habitantes localizada numa península do extremo sul do rio Grande do Sul. Basta chegar aqui para perceber que rio Grande e a água se confundem. Como ambos entraram na sua vida?

Eu morava em uma cidade vizinha e, desde pequeno, meu pai me trazia para visitar o Museu Oceanográfico e andar de bonde. O oceano nos encanta e faz com que fiquemos hipnotizados por essa posição geográfica, pela escala do espaço. O horizonte aqui é impressionante. Os abismos são horizontais, as dimensões são gigantescas. Eu me encantei desde pequeno. Em 1974, fiz vestibular para oceanografia e vim morar aqui. Em seguida, bati na porta do Museu Oceanográfico e me ofereci como voluntário, apresentando-me ao Prof. Eliézer de Carvalho Rios, um apaixonado pela oceanografia e malacologia e a quem eu devo grande parte do que sou hoje. Durante cinco anos, fui voluntário no museu, e aqui estou há 45 anos. Rio Grande é essencialmente um lugar marítimo, onde a maritimidade é respirável em qualquer lugar que se vá. Você dobra uma rua e, no fim dela, tem um barco atracado no cais. Isso é muito encantador. Tenho uma relação de amor com os barcos e, por ser museólogo, com a História. Então a minha relação com Rio Grande é geográfica e afetiva. É uma conexão profunda. Todas as relações que acontecem em Rio Grande remetem a essa mentalidade marítima com a qual eu sonhei o CCMAR, o centro de formação profissional para jovens pobres da nossa comunidade. É um projeto importante, pois atende anualmente 350 jovens em diferentes linhas de formação, como construção naval, educação náutica, navegação e outras tantas, que permitem ao jovem sair capacitado para trabalhar. Como eu conheci a realidade desses jovens, imaginei uma escola que servisse aos jovens para que sobrevivessem sem serem graduados na universidade.

Rio Grande abriga um complexo cultural marítimo que conta com os museus oceanográfico, antártico, Náutico, da ilha da Pólvora e, ainda, o CCMar. Qual é a história por trás desse grande projeto?

O primeiro museu construído em Rio Grande foi o Oceanográfico, em 1953, pelo Prof. Eliézer de Carvalho Rios e pela vontade de muitas pessoas. Ele tornou-se possível através da Sociedade de Estudos Oceanográficos de Rio Grande, que tinha o objetivo de tornar público um conhecimento de poucos: não se sabia o nome dos peixes, detalhes sobre a vida marinha, não se conheciam as conchas, os moluscos. Tudo isso ficava guardado e ninguém sabia. Claro, já havia no mundo movimentos importantes. Os franceses haviam construído o Museu Oceanográfico de Mônaco. Havia oceanografia nos Estados Unidos e no Japão. Em 1970, portanto, criou-se o curso de Oceanografia na Fundação Universidade de Rio Grande (FURG), mas, até então, ela era privada, tornando-se somente mais tarde uma universidade pública. Hoje, temos uma grande universidade, a FURG, da qual tenho a honra de fazer parte, primeiro como estudante e agora como funcionário. Esse complexo começou pelo Oceanográfico e, com a FURG, em 1974, passou a receber anexos, como o Museu Antártico, que é uma grande memória do programa antártico brasileiro. Temos o Ecomuseu da Ilha da Pólvora, que é um lugar lindíssimo, preservado pelo exército, onde construímos um museu sobre a ecologia local. Depois, temos o Museu Náutico, que faz referência à história náutica desse lugar; também temos dois centros: o Centro de Recuperação de Animais Marinhos e o Centro de Convívio dos Meninos do Mar, que é o centro de formação profissional para jovens. Tudo isso trata do mesmo assunto de diferentes ângulos, de modo que a nossa contribuição é científica e social, em uma ação da mais alta importância realizada pela FURG.

Quem são os seus ídolos no mar?

Começamos pelo almirante Joseph Conrad, um marinheiro que nos deixou um legado importantíssimo na literatura: “Se quiseres saber a idade da Terra, viva uma tempestade no mar. Aí, saberás quão anciã é a Terra.” Quando estamos no mar e passamos por uma tempestade, percebemos que a Terra é velha, furiosa, poderosa, que quem manda é ela. Essa vaga pretensão que temos, de que nós, seres humanos, porque temos consciência, estamos no comando e no controle, é pura ilusão. Não temos nada sob controle. Nós somos seres que rastejam no fundo de um oceano de ar. Outro homem por quem tenho admiração é o almirante Tamandaré, um riograndino, herói nacional e patrono da Marinha do Brasil, que deixou exemplos de respeito ao próximo, generosidade, compromisso e rigor.

O nosso vínculo com o mar é muito antigo. temos sido éticos nessa relação?

Nossa relação com o mar tem melhorado. As novas gerações estão mais conscientes e informadas do que as do passado. A tecnologia, por exemplo, permitiu que todos saibam os malefícios do plástico. Em 1974, quando eu juntava os pinguins com óleo e os leões marinhos com cabos enrolados no pescoço, ouvi inúmeras vezes que deveria deixar que morressem na praia, pois eram animais marinhos. Hoje, quando aparece um pinguim na praia, as pessoas o trazem para o Centro de Recuperação de Animais Marinhos, onde cuidamos dele e o reconduzimos ao mar. Essa é uma consciência de conservação e preservação que surgiu do movimento ambientalista. Todos nós temos que ser ambientalistas, ou seja, cidadãos conscientes que podem tornar o mundo melhor. Há trinta anos derramavam petróleo, jogavam produtos no mar e ficava por isso mesmo. A legislação ajudou nesse sentido. Não sou ingênuo, mas um sujeito de esperança.

Ao circular por Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra para complementar a sua formação, o que percebeu que o Brasil tem de aprender e o que podemos ensinar a esses países?

Primeiramente, precisamos aprimorar os nossos fundamentos sobre os direitos humanos. Reduzir a injustiça social e fazer com que os investimentos na educação sejam mais significativos. Precisamos gastar honestamente no que é correto. Uma nação se consolida através dos seus cidadãos bem formados e bem educados. Eu tenho muita esperança na educação, porque sou um produto dela. Sou uma pessoa que foi muito pobre, e acabei chancelado por instituições que acreditaram em mim. Estudei na universidade pública, que, no início, era paga, e precisei trabalhar para estudar; depois, servi nela, consegui um bom trabalho e hoje retribuo o que me foi ofertado de maneira reconhecida. Então, eu sou o exemplo de que esse percurso é possível, que uma pessoa muito pobre pode estudar bastante, se formar, ser útil e viver com muita satisfação como eu vivo.

Falando de tradição e futuro, como você enxerga o Brasil de hoje e a relação com a cultura e a ciência?

Nós temos, no Brasil, uma quantidade grande de pessoas que possuem clareza suficiente para fazer o que é preciso. Não podemos esquecer a característica própria do Brasil, que é a de ser influenciado por muitas culturas. Somos um país continental. Se formos ao Maranhão, vamos encontrar um mundo marítimo e pessoas com uma cultura impressionante, de beleza, técnica e tecnologia patrimoniais impressionantes na navegação. Aqui em Rio Grande também, e todos falamos português. Isso nos deixa submetidos a um desafio gigantesco, que é cuidar da Amazônia com a sua história aquática, com homens construindo a cultura náutica com suas canoas e embarcações para aquele mundo tão distinto deste. Os barcos aqui têm as proas elevadas porque as ondas são elevadas. Os barcos são construídos tortos para ficarem retos na água, me disse um mestre lá no Maranhão. Essa riqueza toda, de certa forma, está preservada. Temos muitos desafios, mas também muitas pessoas sábias e honestas que fazem um bem muito grande ao cuidar de tudo isso.

Ao chegar da travessia do Atlântico Sul, Amyr klink conta que, para prolongar o prazer da viagem, esperou por seis horas antes de desembarcar na Praia da Espera. Se pudesse escolher, qual seria a sua Praia da Espera?

Seria em frente ao Albardão, olhando para aquelas linhas retilíneas, com albardas arenosas no horizonte, onde os abismos são horizontais e as paisagens invisíveis. Tive a oportunidade de estar lá, e sempre foi muito emocionante. Tanto que tenho um livro chamado Areias do Albardão, escrito com mais dois amigos, no qual me refiro a esse litoral inspirador, onde o pensamento viaja para muito longe, porque a paisagem é imensa e podemos nos espalhar à vontade – só depende do tamanho da nossa imaginação.

 


Originalmente publicado na edição Travessia

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