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AMARELLO VISITA: Henrique Oliveira

Uma conversa com o artista plástico Henrique Oliveira

 

Henrique é de Ourinhos, de 1973. Ele começou a pintar com 25 anos, quando voltou de uma temporada em São Paulo, “fiz publicidade em São Paulo e quando voltei pra Ourinhos estava meio sem saber o que fazer, aí comecei a pintar”.

E depois?
Depois voltei pra São Paulo, em 98, pra fazer uma “exposiçãozinha” num boteco e me inscrevi em alguns cursos de arte, no MUBE, com o Paulo Whitaker e o Nuno Ramos.

Você sempre quis ser artista plástico?
Eu sabia que ia trabalhar com alguma coisa assim, sempre desenhei e escrevi bastante quando era pequeno. Entrei na publicidade, um pouco por desconhecer artes plásticas como uma profissão.

De que forma repercutiu a Bienal de São Paulo no seu trabalho?
Nunca um trabalho meu foi visto por tanta gente. Muita gente escreveu no meu site, mandou e-mail parabenizando, contando da experiência. Acho que foi bem bacana.

[Nota do Editor: A Origem do Terceiro Mundo, obra que Oliveira apresentou na Bienal de São Paulo, foi inspirada no quadro “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet. A pintura causou escândalo no século XIX, ao retratar de forma explícita uma mulher de pernas abertas. A instalação de Oliveira se assemelha a uma vagina gigante, pela qual o visitante podia entrar. Lá dentro, encontra um emaranhado de túneis feitos de compensado de madeira. As curvas, reentrâncias e protuberâncias tornam esse labirinto orgânico.]

Você acredita que talento por si só acontece?
Acredito em talento, mas o talento é uma coisa…  E tem que ter uma série de coisas, acho que como qualquer profissão, né? Tem que ter talento para aquilo que você faz,  uma facilidade, um envolvimento com o trabalho, tem que ter foco, persistência, trabalhar mesmo. Artes plásticas exige muita disciplina.

Você tem uma rotina de trabalho?
Tenho. Trabalho à tarde e à noite. Venho todo dia, e trabalho, seja com as pinturas, seja com as esculturas, embora meu trabalho não seja só no ateliê. Há uma série de trabalhos que faço fora, nos museus, nas galerias, em viagens, é um outro esquema, mas sempre que vou trabalhar, estabeleço uma rotina.

Quais são as questões abordadas no seu trabalho?
O artista coloca a obra, as interpretações são individuais. Tem gente que pode olhar pros meus trabalhos com um viés da linguagem da pintura, de como esses movimentos são transpostos pra madeira, como uma lasca de madeira assume o papel de uma pincelada, dá movimento, e a relação com a superfície, que é de cascas e formas fluidas… Também tem essas questões mais formais, de linguagem e de pintura, e outras mais ligadas à antropologia, sociologia, política, às vezes o trabalho vira arquitetura.

Quais dessas questões você acha mais presentes no seu trabalho?
Quando faço o trabalho da madeira, como um em Porto Alegre, na rua, a madeira assume essa forma meio monstruosa; um trabalho que é surreal, meio estranho, que se coloca de uma maneira estranha na cidade, no cotidiano do cidadão, e que ao mesmo tempo traz na matéria esses índices de decadência da cidade, de precariedade, no formato dessas coisas meio tumonares. Acho que aponta um pouco para a ideia dessas transformações, desses inchaços das cidades.

Como surgiram os tapumes?
Ah!, esse trabalho eu comecei a desenvolver quando estava na ECA, e veio de uma pesquisa sobre superfícies de pintura; pesquisa que consistia em ver superfícies do mundo como pintura, muros velhos, paredes desgastadas, essas coisas assim. Estava fazendo essa ponte entre uma pintura plana, uma pintura moderna, rasa – eu estava interessado nisso, e estava pesquisando também materiais usados na linguagem da pintura, e mais outros, utilizados em processos de colagens, de assemblagem… [Oliveira interrompe; pergunta se quer que baixe o som. Tocava então David Bowie, “Oh pretty things”; o volume foi diminuído]. Eu estava fazendo isso, daí comecei a olhar umas… deixe eu te mostrar. [Ele abre seu arquivo de fotos, super bem organizado, e mostra seus primeiros trabalhos].

A pintura anda junto?
Os dois trabalhos andam em paralelo. Tem uma instalação, que fiz agora, em Miami, numa galeria, em que os volumes são construídos iguais nos tapumes, só que recobertos com tinta seca, com lascas de tintas, o mesmo processo de pintura que faço sobre um pedaço de plástico, quando seca, tiro; e funciona como uma espécie de pele, daí eu vou cobrindo as esculturas.

Você cria um projeto ou eles apenas nascem?
Faço uns esboços, uns desenhos, que não preveem como o trabalho vai ser, o desenho serve, no mínimo, como um ponto de partida.

A maioria dos seus trabalhos são desmanchados depois de apresentados, como aconteceu com a Casa dos Leões (2009) em Porto Alegre. Você se apega a eles ou é fácil deixá-los?
Já começou assim, um pouco dessa ideia de trabalho temporário, já estou acostumado. Até mesmo porque são feitos para durar pouco, tanto é que quando faço um trabalho no meu ateliê, faço para que seja permanente. Então, é um outro tipo de construção, muito mais demorado, muito mais cuidadoso.

Existe algum trabalho com o qual você se sente mais realizado?
Tem uns trabalhos que gosto bastante, como o que fiz em Porto Alegre [Casa dos Leões, numa casa abandonada]. Acho que foi um bom trabalho, um antigo plano que eu tinha de fazer o retorno das madeiras para o lugar de origem – vamos dizer assim. Tirei o tapume que estava na casa e utilizei o meu. Aconteceu num momento em que meu trabalho já estava com maturidade, porque tinha esse projeto há tempos, só que, no começo, meus trabalhos eram muito simples, quase que uma reencenação da rua dentro do museu, da galeria. Não tinha muita intervenção, construção de forma; era muito plano.

Você se sente parte de uma tendência ou movimento, ou está por si próprio?
Isso é difícil de dizer, mas na pintura, por exemplo, com certeza há artistas que trabalham próximos. Nas instalações, acho, também. Hoje não existe mais coisa alguma exclusiva; tudo o que estamos fazendo já foi feito.

Quem você citaria na pintura e nas esculturas?
Na pintura, há alguns artistas internacionais. Acho que, de repente, as pinturas abstratas do Gerard Richter, em alguns pontos, têm coisas em comum com outros mais novos, a Fiona Rae, a Pia Fries; há bastante gente que trabalha com questões parecidas, a relação entre a superfície e a imagem que se forma… No Brasil, pouca gente trabalha nesse sentido… E, no campo tridimensional, acho que alguns artistas às vezes têm algum contato; alguns pintores matéricos dos anos 80, como o Anselm Kiefer, ou o Nuno Ramos, naquela série das pinturas tridimensionais. A Anish Kapoor, que faz essas intervenções grandes nos espaços, o Ernesto Neto, o Tadashi Kawamata, que cria instalações com madeira também. Voltando pros anos 80, Frank Stella possui uma série de trabalhos tridimensionais que também tem a ver.

O que gostaria de fazer que ainda não fez?
O que gostaria de fazer que ainda não fiz? Muita coisa! Quero ainda produzir um trabalho no mato, na natureza. Quero fazer um trabalho na paisagem da cidade, como aquele de Porto Alegre, mas em um outro lugar, um lugar diferente um pouco, meio ruína também mas numa outra situação, não um predinho neoclássico, talvez um prédio semidemolido… Há um monte de projetos no caderno de ideias.

Onde recolhe o material para os tapumes?
Pego em vários lugares. Geralmente na rua, em obras, em caçambas; ás vezes numa favela demolida.

Mas é você que ainda pega?  
Ah!, hoje em dia a galera tem recolhido mais do que eu!

Você recicla seu lixo?
Reciclo faz tempo. Separo pelo menos, né? Se vai ser reciclado…

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