Amarello Visita: Heidi Lender

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Amarello Visita: Heidi Lender

Amarello Visita vai até o Uruguai para conversar com a fundadora da comunidade criativa CAMPO

por Tomás Biagi Carvalho

 

Heidi Lender nasceu em New Haven, Connecticut, EUA. Depois de trabalhar em grandes revistas americanas, mudou-se para a Índia, onde estudou ioga por 8 anos, e, quando voltou para os EUA, abriu seu próprio estúdio em São Francisco. Nessa época, descobriu a fotografia e que, através dela, poderia dar um sentido maior para seu trabalho e para o mundo. Hoje, ela mora no povoado de Garzón, no Uruguai, onde toma conta de uma fazenda de 80 acres e fundou a comunidade criativa CAMPO.

Heidi, nos conte um pouco sobre como você veio parar em Garzón, no Uruguai

Às vezes é o lugar que escolhe você. Nesse caso, eu acidentalmente vim parar no pueblo durante uma viagem de dois meses pela América Latina, enquanto dava um intervalo da Índia. Foi em 2009, na semana de Natal em Punta del Este, e não havia um único quarto de hotel disponível pela internet. O único era o hotel do Francis Mallmann, em Garzón. Eu não fazia ideia de quem ele era. Assim que entrei por aquelas portas fiquei apaixonada por esse lugarzinho charmoso no meio do nada. Na véspera de Ano-Novo ele convidou seis hóspedes do hotel para comer um assado nas sierras, e foi uma noite mágica sob as estrelas com um grupo de ecléticos convidados internacionais (que agora são meus vizinhos). Eu comprei meu terreno no dia seguinte. E, depois de um péssimo término de namoro que me fez acordar para a vida, mudei para cá de vez há cinco anos.

Você vem criando uma comunidade artística em Garzón. De onde surgiu essa ideia e como surgiu o interesse pelo assunto?

No mesmo ano em que descobri Garzón, mergulhei na fotografia. Eu tinha uma carreira como autora e editora de revista e era dona de um estúdio de ioga em São Francisco. Mas, ao criar imagens e fotos, eu me encontrei. O ato de me apossar de minha criatividade e meu eu-criativo nasceu do meu tempo sozinha no Uruguai. No espaço, tempo e beleza que me cerca aqui eu tive a chance de mergulhar no meu interior e descobrir do que eu sou feita. Eu me senti apoiada por meu terreno, de verdade. De certa forma, nunca havia me sentido apoiada antes. O CAMPO nasceu no Ano-Novo, há três anos, perto do meu aniversário de cinquenta anos. Senti que era hora de compartilhar as coisas que me inspiram com pessoas criativas no mundo todo. E oferecer a elas a mesma oportunidade incrível que eu vivenciei.

E como foi o surgimento do CAMPO Artfest, que atrai artistas do mundo todo para Garzón?

Antes de eu ter um centavo, ou nosso status uruguaio de fundação, eu estava pensando em uma forma de unir nossa comunidade, de compartilhar o que eu acreditava que o CAMPO poderia e iria ser com um público maior e começar a criar um jantar beneficente anual ou outro evento que pudesse crescer e tomar as proporções de uma fiesta imperdível ao longo dos anos. O CAMPO Artfest 2018 foi lançado com aproximadamente quarenta artistas e 2.000 visitantes em um festival expresso de quatro horas, e, honestamente, nos deixou maravilhados. A segunda edição do festival, que ocorreu esse ano, teve dois dias de duração e contou com mais de cinquenta artistas internacionais. E foi possível testemunhar as possibilidades do CAMPO – e o que acontece quando você junta uma comunidade criativa internacional. Existe uma quantidade grande de estrangeiros que encontrou uma casa em território uruguaio, para recriar suas identidades.

Qual você acha que é o impacto do país na produção dessas pessoas?

A paisagem, os espaços abertos, as pessoas calorosas e receptivas, a simplicidade da vida, sua autenticidade.

Tendo vivido em tantos lugares, você se sente uma estrangeira no mundo?

Ótima pergunta, e sim, eu me sinto uma estrangeira no planeta. Eu cresci como a “esquisita” da família, então sempre me senti confortável, de certa forma, em não pertencer, em ser diferente e, por vezes, ser invisível. O que nem sempre foi uma coisa boa, mas permitiu que eu me sentisse confortável em espaços novos, culturas diferentes e na curiosidade e descoberta do mundo ao meu redor. Eu sou atraída pela possibilidade – ou pela pretensão – do anonimato que é possível sentir ao viver em um país estrangeiro. Mas quanto mais tempo estou morando aqui (esse é o tempo mais longo no qual morei em um mesmo lugar), menos anônima sou, e estou começando a ficar confortável com isso. Construir o CAMPO está tendo esse efeito

No programa de residência artística do CAMPO, além de receber artistas do mundo todo, você recebe também chefs e amantes da culinária. Como você acredita que essas duas artes se conectam?

Seja chef, artista, escritor ou músico, todos eles tocam em algo profundo de nossos sentidos, que oferece uma nova perspectiva, seja um gosto novo ou uma nova combinação de sabores, seja uma nova maneira de ver a paisagem e o mundo. O trabalho deles desperta reações viscerais: uma boa pintura e uma boa refeição são ambas mais que isso; são experiências e essas experiências oferecem uma forma de conexão – seja com algo dentro de nós, seja nos aproximando dos outros, em uma experiência compartilhada.

Como estrangeira, de que maneira você acha que a sua presença em Garzón tem afetado a cidade e a comunidade?

Eu espero que positivamente. Com o CAMPO, estamos injetando uma energia cultural dentro do pueblo, expandindo os horizontes das pessoas no que tange à criatividade e a autoexpressão, compartilhando arte e música de pessoas criativas de todo o mundo com nossos vizinhos. Espero que eles também sejam tocados e inspirados pelo que estamos criando e pelas pessoas que trazemos para a cidade. O CAMPO Artfest dá vida ao vilarejo, tanto para os turistas como para os locais, e no nosso programa de residência encorajamos todos os residentes fortemente a realizarem uma programação junto à comunidade – um ateliê aberto, um workshop rural em uma das escolas, uma palestra ou projeto especial.

Você acredita, de fato, que estamos caminhando para viver numa época em que nosso tempo poderá ser trocado por experiências? Por quê?

Eu acredito que nesse mundo turbulento e bagunçado de hoje há uma grande necessidade de conexão – a si mesmo e aos outros. Então, se essa reconexão for realizada por meio da experiência – como passar um tempo em um lugar como o CAMPO –, e eu acredito que seja, então sim, eu espero que seja para essa direção que estamos caminhando. Nosso objetivo com o CAMPO é conscientizar por meio da expressão criativa. Acordar as pessoas. E esse “acordar” vai reverberar. Precisamos de mais pessoas acordadas no mundo!

Em qual momento da vida você sentiu que rompeu com o que estava vivendo? Como foi?

Minha vida parece ser uma grande ruptura! Estou constantemente me enfiando em novas experiências que me forçam a confrontar os meus medos, ampliar minhas fronteiras e limites – no mundo concreto e também na minha própria percepção. Então, seja me mudando para Paris aos 23 anos e batendo de porta em porta para achar um emprego, ou estudando ioga na Índia, ou me casando e depois me divorciando, sentindo amor e tendo meu coração partido, desistindo da maternidade, me mudando para o Uruguai ou cometendo um monte de erros, tem sido uma quebra atrás da outra, do jeito que gosto.

Quem você citaria como suas maiores fontes de inspiração? Por que e de que maneira te influenciou?

Encontrar meu próprio norte, acreditar e ver/aceitar a mim mesma tem sido uma jornada. E eu tive muitos professores pelo caminho, que foram muito inspiradores… Meus pais, claro, em primeiro lugar; minha primeira mentora na W Magazine, a Katherine Betts, que confiou em mim e me inseriu extremamente jovem no mundo da reportagem de moda sem experiência alguma; meu professor de ioga Pattabhi Jois, que me ensinou sobre dedicação, entrega e compromisso e que se você direcionar a sua mente com intenção você realmente pode realizar qualquer coisa – ele disse “Pratique, pratique, tudo está vindo.”, e é verdade, seja escrevendo, fotografando, sendo uma pessoa bondosa e aberta ou construindo o CAMPO.

O que gostaria de fazer que ainda não fez?

Terminar minha autobiografia, viajar para a Mongólia e para o Butão e um milhão de outros lugares, encontrar um pouco de equilíbrio.

Olhando para trás, hoje você se vê no lugar que imaginava estar há dez anos?

Sem chance. Talvez, quinze anos atrás, eu pensasse que estaria vivendo na Provença, no Sul da França, uma mãe e escritora. A língua espanhola não estava no meu radar, muito menos o Uruguai. A vida é cheia das melhores surpresas.

 


Texto originalmente publicado na edição O Estrangeiro

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