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A MAGIA DA MULTIPLICAÇÃO

de MARINA KLINK

No verão de 2005, como de costume, estava com minhas três filhas na praia de Jurumirim, em Paraty. Eram 8h45 quando avistamos o Paratii2 adentrando a pequena baía de nossa casa. A bordo dele estavam Amyr e sua tripulação. Chegavam então de mais uma volta ao mundo com apenas uma escala, desta vez na península Antártica. As meninas eram ainda muito pequenas e estavam eufóricas por rever o pai após seis meses no mar. Era difícil explicar para elas onde ele estivera por todo aquele tempo. Naquela época, tinham entre cinco e sete anos. Pensei que seria mais fácil ir até lá e mostrar aquilo tudo para elas, para que vissem com os próprios olhos onde era aquele lugar tão distante para onde o pai delas sempre retornava, e quem sabe assim conseguissem absorver experimentando. Foi quando tive a ideia de irmos todos juntos numa próxima vez, e pela primeira vez. No verão seguinte, estávamos todos juntos embarcando para a Antártica.
A princípio, o Amyr foi reticente, mas não demorou muito para que se convencesse de que se tratava de uma boa ideia. Certamente, porém, levar as meninas a um dos destinos mais temidos do planeta não era programa fácil de se executar. No verão seguinte, as gêmeas Tamara e Laura estavam com oito anos de idade, e a Marininha completava seis quando todos juntos cruzamos o Cabo Horn pela primeira vez. E, ao contrário do que se pensa, conosco o cabo não foi tão impiedoso assim. O mais temido ponto das navegações de todos os tempos, o extremo sul do continente americano, geograficamente o ponto de encontro dos oceanos Pacífico e Atlântico, o mais famoso palco de naufrágios deu uma trégua e nos deixou passar.
Aquela foi uma grande oportunidade de podermos protagonizar em família uma viagem singular. Mas não reservamos a viagem somente para nós; embarcaram conosco outros amigos, e também dois filhos de amigos na mesma faixa etária das nossas filhas, a Gigi e o Luca. Rapidamente, as cinco crianças se tornaram amigas e, devido à intensa convivência, juntas descobriam as riquezas de estarem vivenciando dias especiais nas suas vidas. Dei a cada uma delas um pequeno caderno, onde deveriam anotar seus pensamentos e descobertas do dia. Completei que não precisariam ser necessariamente textos, mas também desenhos ou frases bem curtas, desde que anotassem algo marcante de cada dia. Expliquei que o que nos parece inesquecível hoje logo será esquecido, e as anotações seriam uma forma de eternizar descobertas.
Costume nada brasileiro esse de fazer anotações pessoais, mas cena bastante comum quando se viaja de trem pela Europa. O hábito de registrar impressões faz com que, ao abrirmos os cadernos anos depois, sejamos capazes de viajar pelas páginas da memória outra vez. Assim foi feito. A princípio, havia certa resistência e um tanto de preguiça, mas, como essa era a única tarefa da viagem, aos poucos as crianças foram engrenando. Valorizo as anotações e certamente os diários pessoais servirão para sempre como fonte de consulta e como resgate da nossa memória.
Aquela viagem foi transformadora para todos. Juntos, cada um, no seu próprio tempo fomos percebendo que sem disciplina tudo se tornaria muito difícil. Desde a convivência a bordo e os horários nada fáceis de determinar até o fato de que, se não nos ocupássemos em preparar as refeições, elas simplesmente não existiriam. Durante uma longa viagem de barco, é impossível ficarmos parados. Diante de um espaço restrito, temos que ser muito próativos e, aos poucos, cada um dos tripulantes vai se posicionando nas funções naturalmente. Dependendo de suas habilidades, um assume a limpeza, outro assume o preparo da comida. Um se adianta no apoio às manobras, outro se ocupa nos aprendizados técnicos dentro do barco. Como exemplo, a Tamara gostou de aprender a fazer pão e passou a garantir nosso café da manhã ao longo de toda a viagem. A Marininha assumia o controle da louça e explicava que ninguém limpava melhor do que ela.
Naquela viagem, mais do que aprender sobre o continente gelado, todos aprendemos a valorizar uns aos outros. Aprendemos sobre os talentos pessoais e a valorizar cada criança, dando-lhes o mérito de sua participação no trabalho em equipe. Entendi, assim, que poderíamos estar em qualquer lugar da Terra, não necessariamente no continente mais remoto e menos conhecido de todos, para compreender que o principal ingrediente da viagem estava dentro de nossa casa.
Para que aquela viagem não se tornasse entediante, procurei estimular a curiosidade das crianças, mostrando o que lhes poderia parecer mais interessante na natureza. Pesquisava sobre o comportamento dos animais nos livros que levara a bordo. Buscava fatos que pudessem entreter as crianças para que soubessem observar e admirar cada um delesdeles. Não havia para onde ir a não ser apreciar os desembarques diários no gelo, retornando apressadamente, sempre que surgia a iminência de uma depressão meteorológica nada incomum.
De dia víamos os animais de perto e, na hora do jantar, eu verificava as anotações feitas por cada uma delas. Às vezes reclamavam, mas aos poucos foram entrando no ritmo e pegando gosto por suas produções. Foi quando começaram a caprichar, e até faziam desenhos coloridos como referência ao que tinham vivido naquele dia. Fizeram registros de experiências únicas, mesmo porque não é todo dia que se vê uma baleia Jubarte de perto, ou um elefante marinho trocando de pele. Poder vivenciar tudo isso; o natural, é muito diferente de receber essa mesma infomação de um professor, sentado em uma cadeira dentro de uma sala de aula.
No ano seguinte, pudemos voltar para a Antártica, mas daquela vez me antecipei e fui  à escola onde estudavam. Propus aos educadores que essa viagem de férias fosse encarada como uma viagem de estudos do meio ambiente. Estabeleci o compromisso de que, ao retornarmos, elas apresentariam aos colegas o que haviam aprendido. A escola avaliou minha proposta e, dias depois, apresentou um plano de trabalho com um roteiro que ia além das lições de casa. Elas fariam também registros técnicos, e isso tudo justificaria suas faltas letivas.
No nosso retorno, 45 dias depois, lá estavam elas, unidas, magnetizadas em frente a um computador, escolhendo as fotografias que ilustrariam a apresentação. Na semana seguinte, as três, juntas, faziam pela primeira vez uma palestra, a narrativa de suas férias na Antártica. O sucesso foi grande e gerou novos convites para que se apresentassem não só para outras turmas da sua escola, mas também para outras instituições de ensino. Passei a treiná-las para que se profissionalizassem nas apresentações e, no ano seguinte, surgiu o convite para, juntas, escreverem um livro.
Com muito entusiasmo e dedicação de todas nós, rapidamente o livro ficou pronto (editado pela Editora Peirópolis – Grão). O lançamento de Férias na Antártica aconteceu na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) e, desde então, ele tem sido adotado por diversas escolas particulares e pela rede pública de ensino. O livro já está na nona edição. As meninas continuam se apresentando e somam mais de 150 palestras em escolas, empresas e organizações.
Sinto muito orgulho, sim. Não só como mãe, mas ao ver que foram além daquele projeto escolar. Fico recompensada por enxergar que o caminho aberto pelo pai delas não se encerrou apenas em viagens extraordinárias, mas se abriu em um aprendizado em família e acabou alcançando outras crianças, muitas das quais jamais teriam conhecido algumas das riquezas de um continente distante.
Em contrapartida, algumas vezes recebemos bilhetes e ilustrações feitos por alunos que assistiram à palestra ou mesmo que leram o livro. Muitos trazem conceitos que extrapolam o que viram ou leram, revelando o que sentiram. A isso se soma a preocupação com o meio ambiente, especificamente com a defesa das baleias. Provas de que meu esforço valeu a pena. Não posso levar todas as crianças para a Antártica, mas a minha maior realização é constatar que, de certa maneira, pude trazer a Antártica para dentro das salas de aula.
E as meninas não pararam por aí. Pegaram gosto e criaram sozinhas o blog onde relatam suas viagens (www.IrmasKlink.com.br/diariodebordo). Atualmente, as três juntas somam sete viagens para a Antártica, entre outras tantas para o continente africano, para o Norte e o Sul do Brasil, e diversas para o Pantanal brasileiro. Criadas desta maneira bastante fora da caixa, elas não se importam de viajar para destinos onde não encontram muita gente. Quanto menos gente, mais a natureza fala diretamente ao coração. Diante de tantas opções de destinos, preferimos ir para lugares que ainda não estejam prontos; aqueles que não são pacotes oferecidos por agências de viagem. Melhores são aqueles que oferecem muitas surpresas pelo caminho.

 

AS IRMÃS KLINK

 

“Para nossa família, viajar sempre foi um meio de contar histórias. Viajamos para aprender, e nossa mãe nos ensinou que é importante estarmos atentas para podermos compartilhar nossos aprendizados depois e, de algum modo, passar aos outros o que nos fez ver o mundo em que vivemos de forma diferente.
Gostamos de compartilhar. Afinal, para que serviria uma experiência, por mais espetacular que fosse, se a guardássemos só para nós?
Entre uma viagem e outra aprendemos muitas lições, que passamos para pessoas como nós, por meio de palestras e de nosso livro. Falamos muitas vezes para gente da nossa idade. Nossa mãe nos ensinou que o mais importante de uma viagem não é o destino final, mas, sim, o que fazemos dela depois que voltamos para casa.” Por Marininha Klink

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“Uma viagem não precisa acabar quando chegamos ao aeroporto, ou quando desempacotamos as malas. O término depende de nós; se faremos proveito de tudo que aconteceu e se deixaremos que a experiência vivida influencie nossas vidas, ou se a trancaremos em um baú a sete chaves. Dividir também é reviver. Mostrar fotos, contar experiências e escrever nos permite dar continuidade e sentido a cada viagem. Nada mais gratificante do que olhar para uma pessoa ou para plateia e ver olhos brilhando de curiosidade.
Ter a oportunidade de palestrar e publicar um livro fez com que pudéssemos multiplicar os aprendizados de cada viagem e estimular o interesse de outras pessoas, especialmente crianças, em relação a diversos temas como sustentabilidade e meio ambiente, além de mostrar que não são só adultos que escrevem livros.” Por Laura Klink

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“Não sei se alguma vez gostei de andar de barco, ou se isso sempre foi algo tão presente na nossa educação, que nunca parei para pensar se gosto de fato. Como aprender a ler, navegar sempre foi algo inquestionável. Mais do que um passatempo, era um instrumento para entender o mundo com autonomia.
No barco, nossa primeira escola, meu pai e minha mãe lecionavam matérias distintas. Nosso pai conduzia o Paratii2 e nos ensinou a lidar com pessoas: entender os limites de nosso poder de decisão, a nossa responsabilidade sobre o sucesso da viagem e a sutil diferença entre comandar e liderar. Nossa mãe preparava a viagem e dirigia a rotina, e nos ensinou a acreditar nas nossas ideias, a tomar iniciativa e trabalhar em equipe. E essa preparação não acontecia só no mar: em São Paulo, ela fez questão de que cedo soubéssemos nadar, velejar, andar de bicicleta e a cavalo, porque só fazia sentido viajarmos para longe se tivéssemos autonomia para voltarmos sozinhas. Ela também nos coagiu a manter um diário. Foi essa a porta de entrada para uma série de vícios que surgiram depois: querer entender os animais, acompanhar nosso progresso cartográfico, observar as mudanças de temperatura, ouvir experiências dos outros e fotografar.
Graças aos diários, tivemos a oportunidade de reviver várias vezes a mesma viagem, não raro de forma ainda mais aprofundada na posteridade do que no momento da experiência. Graças aos diários, pudemos, ainda pequenas, falar a milhares de pessoas sobre lições que levamos para a vida.
Meu pai dividiu sua experiência conosco, minha mãe nos ensinou a multiplicá-la. E dividir e multiplicar é o que hoje nos motiva a ir longe. Talvez não goste tanto de andar de barco. O que amo é ter a certeza de que, ao estudar no mar, aprendo a navegar na terra. E, pelas palestras, livros e publicações no diário de bordo do nosso site, sei que, quando nossa mãe resolveu levar as filhas de oito e seis anos para o gelo, ela era louca o suficiente para acreditar que, quanto mais longe da escola estivéssemos, mais podíamos aprender. E ensinar.” Por Tamara Klink

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