A arte está nos detalhes: Francesca Di Mottola

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A arte está
nos detalhes:

Francesca Di Mottola

 

por Tomás Biagi Carvalho

Depois de semanas tentando marcar uma conversa por Skype sem sucesso, eis que surge Francesca na minha tela, interrompendo suas férias de verão, com roupa branca de praia, sentada em um sofá da mesma cor, em uma casa em algum lugar da Itália, que mais parecia um cenário de um filme do Tim Burton. Burton, ela logo me diz, que foi o diretor mais obsessivo com detalhes com quem já trabalhou.

Francesca é brasileira, nascida no Rio de Janeiro, diretora de arte para cinema das mais talentosas que conheço. Mudou-se com sua família para Roma aos 7 anos de idade, e agora mora em Londres com o filho de 6 anos.

O trabalho de um diretor de arte para cinema é, mais ou menos, como dirigir uma orquestra. Existem dois caminhos que podem ser trilhados. O primeiro começa com o envolvimento no filme desde a pré-produção. Com o diretor, e toda a equipe, inicia-se o processo de definir as locações, palheta de cor, figurino, decoração dos cenários, até chegar na pós-produção, quando busca-se encontrar a medida entre o que deve ser feito através de efeitos especiais e o que seria melhor realizar de maneira analógica, com objetos de cena, cenários reais e figurino. Como foi o caso do filme Hunting and Gathering, ficção científica que está fazendo com seu ex-marido Matthew Huston (neto do grande ator e diretor John Huston), a qual se passa em um futuro não muito distante, e contará muito com efeitos visuais e telas azuis. Tudo realizado pela equipe de pós-produção, mas definido por Francesca.

No segundo caminho, seu trabalho começa a partir de uma ideia muito clara vinda do diretor, como aconteceu nos filmes Cold Mountain, de Anthony Minguela (no qual ela foi desenhista do grande  designer de produção Dante Ferreti, que acaba e filmar Cinderella, com Kenneth Branagh), Sweeney Todd, de Tim Burton, e I am love, de Luca Guadagnino. Esses dois últimos, diz ela, os dois diretores mais obsessivos com detalhes com quem já trabalhou. Coisa que Francesca se interessa muito, e que podemos notar claramente em seus trabalhos, pois acredita que são os detalhes que contam uma história da maneira que ela tem que ser contada, e a legitima, tornando-as reais aos olhos do público.

No filme I am love, a obsessão do diretor Luca Guadagnino era tanta, que até o livro que Tilda Swinton aparece lendo em cena tinha que ser um título específico, de determinada edição. Já em Cold Mountain, com Nicole Kidman e Jude Law, passado durante a Guerra Civil americana na Carolina do Norte, a pesquisa foi tão extensa, que até as plantações de trigo do Estado americano tiveram que ser reconstituídas. Ou seja, semeadas, cultivadas, e aí sim, usadas como locação para as filmagens. No filme de Tim Burton, Francesca teve de desenhar inúmeras vezes o berço que aparece em cena, para chegar o mais próximo do que o diretor queria, dentro de sua linguagem hiper-gótica e extremamente carregada. 

Seu último grande trabalho foi a série política italiana 1992. Em 10 episódios, a série retrata  o começo da carreira política de Berlusconi, que junto com a série Gomorrah, baseia-se no livro de Roberto Saviano, que infiltrou-se na máfia italiana e segue por ela ameaçado. Ambos projetos fazem parte do renascimento da televisão italiana, movimento que está acontecendo no mundo todo, com maior visibilidade, é claro, para as séries Mad Men e House of Cards, dois dos maiores seriados da televisão americana, de grande influencia tanto em roteiro quanto em direção de arte e figurino. O maior desafio em 1992 foi recriar o começo dos anos 90, já que o mundo passava por grandes mudanças políticas  e culturais.

Francesca, como boa detalhista que é, se interessa por cinema de nicho, projetos autorais, de orçamentos menores. Neles, a falta de recurso faz que que o trabalho se de de maneira mais criativa. É ali, na minha modesta opinião, que habitam as melhores histórias. 

Ela me disse estar muito entusiasmada com a mudança para Londres, onde está sendo agenciada pela primeira vez, e com muitas perspectivas de produzir bons projetos, com diretores que conheceu filmando comerciais de televisão, e agora estão migrando para o cinema.

Depois de tantos desencontros, da grande diferença de fuso horário, das chamadas perdidas pelo Skype e Whatsapp, a sensação é a de que sempre vale a pena encontrar com Francesca. Mesmo através da tecnologia. Assim relembramos que o mundo é vasto e o conversa olho no olho faz toda a diferença. 

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