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1915 BLOODSHED AND OPPULENCE

Uma apresentação Thimister de almas e vestidos.

Por Antonio Biagi

O designer holandês Josephus Melchior Thimister prepara sua coleção 1915 Bloodshed and Oppulence (1915: Derramamento de Sangue e Opulência) na Semana de Alta Costura de Paris em janeiro de 2012 (e o tema ainda faz sentido em maio de 2017).

O desenvolvimento da coleção nasceu do desejo do artista de compartilhar sua visão da equação arte e moda. Tem algo em comum com o que se costuma ver nas passarelas: glamour e luxo, mas não se tratava apenas disso. Se diferia daquela em que o luxo e o glamour sobram na mesma medida em que falta conteúdo com significado.

O que se viu no desfile de Thimister foi uma  apresentação de almas e vestidos. As raízes ele buscou em seus próprios clássicos e criou reinterpretações para o contexto daquele momento. A proposta era criar reflexões que conduziam a uma nova abordagem sobre a construção. Reflexões sem trégua em tempos de insegurança, catástrofe econômica e desolação ambiente.

O caos vivido em 1915 pode ser facilmente transferido à nossa época, um tempo dominado pelo sofrimento, pela falta de esperança e pela sobrevida. 

Permitindo um distanciar necessário e uma análise de nossa sociedade que tenta encobrir o vazio, mas que, no fundo, anseia por uma vida mais plena, mais rica, em que supostamente a espiritualidade é valorizada.

Composta de duas partes, o desfile aliava o componente militar à alta costura. O componente militar cospe explosões de branco sujos de sangue sobre almas imaculadas, um exército verde, reminiscências dos Cossacos Russos, meninas que se arrastam no sangue, assombradas pela falta de esperança. Um movimento sem ordem nem guia, buscando uma vida melhor, ao longe, em outras margens.

Variações de verde que se esfregam a peles vermelhas como que manchadas de sangue e bordados que colocam lado a lado o branco e manchas Jackson Pollock.

O componente Alta Costura Russa reflete uma aristocracia intocável e neurótica que ignora toda e qualquer responsabilidade, protegida hermeticamente do rude mundo exterior. Ela se esconde em um universo de torres de marfins, Vogues de luxo e atitudes imperiais. Desliza desdenhosa sem mostrar o menor sinal de medo ou fragilidade. Nuances imperiais de vermelho e creme enriquecidas por raios de prata dos “vestidos samovar’’. Os casacos de raposa branca desafiam o frio e o olhar dos pobres, mas, no final, as belezas russas acabam por cair em desgraça junto aos primeiros soldados vítimas da guerra.

A sociedade, conquistadora e vítima de si própria, propaga um misto de esperança e  aflição que contrasta com a opulência da extrema beleza e do luxo. Príncipes e indigentes, Botticellis bálticos e fantasmas rurais vivem juntos na tempestade e no vento.

O sangue e a lama, a sobreposição dos séculos, a fusão dos países, as lembranças da guerra, lufadas de beleza e riqueza, o incenso de profundas crenças ortodoxas que defumam as almas como faria uma voz de tumba.

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